Trinta e seis milhões de pessoas vivem com a condição no mundo. Em Belo Horizonte, uma paciente que prefere não se identificar relata como descobriu o transtorno em 2019 — e por que demorou tanto para entender o que sentia

“Eu não sabia o que estava acontecendo comigo”
Uma paciente de Belo Horizonte, Minas Gerais, que prefere não ser identificada, conhece bem esse caminho. O transtorno apareceu em sua vida em 2019 acompanhado de uma depressão profunda. Por muito tempo, ela não entendeu o que sentia. “Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Achava que era só tristeza, que ia passar”, conta.
O que mais pesou, segundo ela, foi a falta de informação. Ela relata que nunca teve contato com explicações claras sobre o transtorno bipolar nos meios de comunicação ou mesmo nos postos de saúde que frequentou. “A gente ouve falar de depressão, de ansiedade, mas de bipolaridade quase nunca. Quando ouve, é de um jeito distorcido, como se fosse ‘drama’ ou ‘falta de vergonha na cara, meu ex-marido sempre dizia que eu era bipolar e não fazíamos ideia do que realmente significa e de que eu era mesmo'”, diz.
O diagnóstico veio tarde e, para ela, tarde é qualquer tempo em que a pessoa sofre sem saber por quê. “Se eu tivesse ouvido falar disso antes, talvez tivesse buscado ajuda mais cedo. “
Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, a genética é o principal fator de risco: se pai e mãe têm o transtorno, a chance de um filho desenvolver é de cerca de 50%. Mas, como em quase tudo na saúde mental, a genética não é destino. Fatores estressores ao longo da vida podem funcionar como gatilhos.
Na fase maníaca, os sinais costumam ser visíveis para quem está de fora; ainda que a pessoa em crise raramente os perceba. Autoestima inflada, necessidade reduzida de sono, fala acelerada, pensamentos que saltam de uma ideia a outra, distração constante, envolvimento em atividades prazerosas com alto potencial de consequências danosas, como gastos compulsivos ou comportamentos sexuais de risco. A duração mínima de um episódio maníaco completo é de uma semana. A hipomania, sua versão mais branda, dura pelo menos quatro dias.
Já a depressão bipolar se parece muito com a depressão “comum”: tristeza profunda, perda de interesse, falta de energia, culpa, pensamentos de morte. E é aí que mora um dos maiores desafios diagnósticos. Como a maioria das pessoas passa mais tempo nos períodos depressivos do que nos eufóricos, é comum que o transtorno bipolar seja confundido com depressão unipolar. O paciente chega ao consultório na fase de baixa. O médico trata a depressão. A mania, que talvez tenha acontecido anos antes e parecido apenas “uma fase boa”, fica fora do radar.
O resultado? Diagnóstico tardio, tratamento inadequado e anos de sofrimento evitável.
O que o tratamento pode e não pode fazer
O transtorno bipolar não tem cura. Mas tem controle. E a diferença entre uma vida devastada por crises e uma vida estável, com projetos e vínculos, costuma estar exatamente aí: no acesso ao tratamento certo, na adesão contínua e no acompanhamento multidisciplinar.
A paciente de Belo Horizonte, hoje em acompanhamento, diz que a diferença é como sair de um quarto escuro. “Quando você entende o que tem, para de se culpar. Não é frescura, não é fraqueza. É uma condição que precisa de tratamento, como qualquer outra.”
No Brasil, os números do sistema público de saúde ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. Entre 2021 e 2023, o SUS registrou quase 170 mil internações por transtornos de humor. A grande maioria — cerca de 89% — ocorreu em caráter de urgência, o que sugere que muitos pacientes chegam ao sistema já em crise instalada, sem acompanhamento regular anterior. Esses números reforçam a importância de ampliar a informação e facilitar o acesso ao cuidado.
Tratamento existe — e pedir ajuda é um passo importante
O transtorno bipolar pode ser tratado. O cuidado costuma envolver acompanhamento psiquiátrico, medicamentos quando indicados e intervenções psicológicas e psicossociais. Manter uma rotina de sono, observar mudanças de humor, reduzir fatores de estresse e contar com uma rede de apoio também pode ajudar. O tratamento precisa ser individualizado; medicamentos não devem ser iniciados, interrompidos ou alterados sem orientação profissional.
Família e amigos podem fazer diferença ao ouvir sem julgamento, oferecer companhia e incentivar a busca por atendimento. Frases que minimizam o sofrimento, como “isso é drama” ou “é só ter força de vontade”, podem afastar a pessoa do cuidado. Acolher não é resolver tudo: é reconhecer o sofrimento e ajudar a encontrar apoio.
• UBS / posto de saúde: porta de entrada do SUS para avaliação e orientação em saúde mental.
• CAPS — Centro de Atenção Psicossocial: serviço público especializado. Em geral, é possível procurar diretamente o CAPS da região para o primeiro acolhimento; a UBS ou a Secretaria Municipal de Saúde pode informar o endereço mais próximo.
• CVV — 188: apoio emocional gratuito, sigiloso e disponível 24 horas por dia. Também há atendimento pelo site cvv.org.br. O CVV não substitui consulta ou tratamento de saúde.
• Urgência ou risco imediato: procure uma UPA ou pronto-socorro. Em emergência, ligue para o SAMU (192). Se houver risco de suicídio ou de ferir a si mesmo, não deixe a pessoa sozinha enquanto busca ajuda imediata.

Eu tenho transtorno bipolar afetivo e sei como é a batalha, dias bons e dias ruins e quando os dias ruins chegam é realmente desafiador durante esses dias, fico feliz de ver uma matéria assim e recomendo um livro chamado “Uma mente inquieta” de uma psiquiatra que descobriu que tinha o transtorno durante seus dias de estudos.
Olá, Vítor! Muito obrigada por compartilhar um pouco da sua experiência conosco. Sei que essa caminhada nem sempre é fácil, e é justamente por isso que precisamos falar mais sobre saúde mental, quebrar preconceitos e mostrar que ninguém precisa enfrentar essa luta sozinho. Fico feliz que a matéria tenha tocado você. Obrigada também pela indicação do livro! Que possamos contribuir para que mais pessoas compreendam o transtorno bipolar e olhem para quem convive com ele com mais empatia e respeito. Um grande abraço!