Entre a Cruz e o Século XX

A Santa Sé diante dos dois totalitarismos — Série Especial em 3 Partes

Parte I — Entre a Cruz e a Suástica

O Vaticano diante de Hitler: diplomacia, silêncio e sobrevivência institucional

Por Regina Papini Steiner — A Chama

Quando Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha, em janeiro de 1933, a Europa já não era o continente que havia encerrado a Primeira Guerra Mundial apenas quinze anos antes. A crise econômica provocada pela quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, havia desestruturado governos, ampliado o desemprego e fortalecido movimentos extremistas. Em diversas nações, a democracia liberal dava sinais de fragilidade, enquanto ideologias autoritárias ganhavam espaço prometendo ordem, estabilidade e prosperidade.

Foi nesse cenário de instabilidade que o nazismo consolidou sua ascensão. Entretanto, compreender a posição do Vaticano diante desse fenômeno exige abandonar interpretações simplistas. A história não se divide entre heróis e vilões absolutos. Ela é construída por decisões políticas tomadas sob pressões, limitações e dilemas morais que, décadas depois, continuam sendo objeto de intenso debate entre historiadores.

A Santa Sé, naquele momento, não era apenas uma instituição religiosa. Era também um Estado soberano, dotado de diplomacia própria, preocupado com sua sobrevivência institucional e com a proteção de milhões de católicos espalhados pela Europa. Essa dupla natureza explica parte das decisões tomadas entre as décadas de 1930 e 1945.

Uma Europa dividida pelo medo

Antes mesmo da ascensão de Hitler, outro fantasma já preocupava profundamente o Vaticano: o comunismo soviético.

A Revolução Russa de 1917 alterou completamente o equilíbrio político europeu. Sob o governo bolchevique, diversas instituições religiosas sofreram perseguições, propriedades foram confiscadas e milhares de membros do clero enfrentaram prisões, deportações e execuções. Para a Igreja Católica, não se tratava apenas de uma divergência ideológica, mas da percepção de uma ameaça direta à liberdade religiosa.

Segundo o historiador David I. Kertzer, vencedor do Prêmio Pulitzer e um dos maiores especialistas na relação entre Igreja e fascismo, compreender esse temor é fundamental para entender a política externa do Vaticano durante o período. Em suas pesquisas baseadas nos Arquivos Apostólicos do Vaticano, Kertzer demonstra que boa parte da diplomacia da Santa Sé passou a enxergar o comunismo como um perigo existencial muito antes do crescimento do nazismo.

Essa constatação, contudo, não significa que a Igreja tenha apoiado automaticamente o projeto político de Hitler. Significa, antes, que duas ameaças distintas passaram a disputar a atenção da diplomacia vaticana: de um lado, o comunismo ateu; de outro, um nacionalismo radical que rapidamente assumiria características totalitárias.

O Concordato de 1933

Poucos meses após Hitler assumir o cargo de chanceler, a Alemanha e a Santa Sé firmaram o chamado Reichskonkordat, tratado internacional que permanece objeto de debates até os dias atuais.

Para alguns críticos, o acordo teria conferido legitimidade internacional ao novo governo alemão. Já outros historiadores defendem que sua finalidade principal era garantir proteção jurídica às escolas católicas, dioceses, associações religiosas e ao funcionamento da Igreja dentro do território alemão.

O historiador Michael Phayer, especialista em Igreja Católica e Holocausto, observa que acordos dessa natureza faziam parte da tradição diplomática da Santa Sé muito antes da chegada de Hitler ao poder. O Vaticano buscava preservar espaços institucionais onde quer que o catolicismo estivesse presente, independentemente da natureza do governo local.

Na prática, porém, o regime nazista começou rapidamente a violar diversas cláusulas do tratado. Organizações católicas foram fechadas, religiosos passaram a ser perseguidos e parte do episcopado alemão entrou em conflito aberto com o governo.

Pio XI e a condenação ao nazismo

Embora muitas vezes a história seja associada apenas ao papa Pio XII, seu antecessor, Pio XI, desempenhou papel decisivo na definição da postura oficial da Igreja diante do nacional-socialismo.

Em 1937, o Vaticano publicou a encíclica Mit brennender Sorge (“Com profunda preocupação”), redigida em alemão e distribuída clandestinamente para ser lida em igrejas de todo o país.

O documento criticava duramente a idolatria do Estado, o culto à raça, o racismo biológico e a tentativa do regime nazista de substituir princípios cristãos por uma ideologia política.

Segundo o historiador Richard J. Evans, um dos maiores especialistas no Terceiro Reich, a reação de Hitler foi imediata. Após a divulgação da encíclica, a repressão contra setores católicos intensificou-se significativamente.

Esse episódio demonstra que a relação entre Vaticano e regime nazista esteve longe de ser harmoniosa. Ainda assim, a diplomacia da Santa Sé evitava romper completamente os canais de comunicação, acreditando que a manutenção do diálogo poderia preservar vidas e proteger comunidades católicas.

A chegada de Pio XII

Em março de 1939, poucos meses antes do início da Segunda Guerra Mundial, o cardeal Eugenio Pacelli foi eleito papa, adotando o nome de Pio XII.

Pacelli conhecia profundamente a Alemanha. Havia servido como núncio apostólico no país durante anos e acompanhara de perto o crescimento tanto do nacionalismo quanto do comunismo europeu.

Foi durante seu pontificado que surgiria uma das maiores controvérsias da história contemporânea: teria Pio XII permanecido excessivamente silencioso diante do Holocausto?

Essa pergunta continua dividindo especialistas.

O jornalista e escritor John Cornwell, em O Papa de Hitler, sustenta que a cautela do pontífice representou um grave erro moral, contribuindo para enfraquecer a resistência internacional ao nazismo.

Já David Kertzer, analisando documentos liberados recentemente pelos Arquivos Apostólicos do Vaticano, propõe uma interpretação mais complexa. Em vez de absolver ou condenar integralmente Pio XII, o historiador demonstra que as decisões da Santa Sé foram marcadas por sucessivos dilemas diplomáticos, receios de represálias contra católicos em territórios ocupados e pelo temor constante do avanço soviético.

O silêncio que ainda provoca debates

Talvez nenhuma expressão seja tão recorrente nos estudos sobre Pio XII quanto “o silêncio do Papa”.

Para alguns pesquisadores, o pontífice deveria ter denunciado publicamente, de maneira explícita, o extermínio dos judeus promovido pelo regime nazista.

Outros argumentam que manifestações abertas poderiam provocar consequências ainda mais graves para religiosos, civis e comunidades inteiras escondidas em conventos, mosteiros e instituições católicas.

O historiador israelense Saul Friedländer, uma das maiores autoridades mundiais sobre o Holocausto, destaca que qualquer avaliação desse período deve considerar a enorme complexidade das circunstâncias vividas durante a guerra. As escolhas feitas pelo Vaticano envolveram fatores diplomáticos, militares, religiosos e humanitários que desafiam julgamentos simplificados.

Enquanto isso, o historiador Timothy Snyder lembra que o Holocausto ocorreu em uma Europa devastada por múltiplos regimes totalitários. Reduzir a análise apenas à atuação do Vaticano significa ignorar o papel desempenhado pelos próprios Estados nacionais, pelas elites políticas, pelas administrações locais e pelas diferentes formas de colaboração com o nazismo.

Entre a prudência diplomática e a responsabilidade moral

Mais de oitenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, os documentos continuam sendo estudados, novas interpretações surgem e antigas certezas são revisadas.

Os Arquivos Apostólicos do Vaticano, abertos integralmente aos pesquisadores em 2020, ampliaram significativamente o acesso a correspondências, relatórios diplomáticos e documentos internos do pontificado de Pio XII. Longe de encerrar o debate, esse novo material tem demonstrado que a atuação da Santa Sé não pode ser reduzida a slogans ou narrativas binárias.

A questão central permanece aberta: até que ponto a prudência diplomática justificava o silêncio público diante de um dos maiores crimes da história da humanidade?

Responder a essa pergunta exige mais do que convicções políticas. Exige pesquisa histórica, análise documental e disposição para compreender que, em períodos extremos, decisões institucionais costumam ser tomadas em uma zona cinzenta onde sobrevivência, moralidade e geopolítica frequentemente entram em conflito.

Na próxima reportagem desta série, o foco se desloca para o pós-guerra, quando a derrota do nazismo dá lugar a um novo confronto global. A Guerra Fria aproximará, por diferentes razões, o Vaticano e os Estados Unidos, tendo o comunismo soviético como adversário comum, redefinindo o papel da Santa Sé na política internacional durante a segunda metade do século XX.

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