Eleições 2026: quando uma mentira compartilhada também ameaça o direito de escolher.

foto de  Jonathan Borba

Polarização, inteligência artificial e excesso de informações, o eleitor precisa aprender a desconfiar, verificar e interromper a circulação de conteúdos falsos.

por Regina Papini Steiner – A Chama

As eleições brasileiras de 2026 não serão disputadas somente nos palanques, nos debates televisivos ou nas urnas. Parte decisiva da campanha acontecerá dentro dos celulares, nos grupos de família, nas redes sociais e nas conversas entre amigos. É nesse ambiente cotidiano, aparentemente inofensivo, que uma informação falsa pode ganhar aparência de verdade.

No próximo dia 4 de outubro, os brasileiros escolherão presidente da República, governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais. Antes dessa decisão, porém, o eleitor enfrentará outro desafio: distinguir fatos de mentiras em meio a uma quantidade quase interminável de vídeos, áudios, montagens, pesquisas, acusações e promessas.

A desinformação eleitoral não depende apenas de quem cria uma mentira. Ela precisa de pessoas comuns para circular. Muitas vezes, quem compartilha não deseja enganar ninguém. Pode ser um pai preocupado, uma tia indignada, um colega de trabalho ou alguém que confia na pessoa que enviou a mensagem. O problema é que a boa intenção não transforma uma informação falsa em verdadeira.

Ao repassar uma mentira sem verificar, qualquer pessoa pode se tornar, ainda que involuntariamente, parte da corrente da desinformação. E, depois que o conteúdo se espalha, o estrago nem sempre pode ser desfeito com a mesma velocidade.

A mentira que parece verdade.

As notícias falsas mais perigosas não são necessariamente aquelas totalmente inventadas. Muitas misturam fatos reais com informações falsas, retiram uma frase de contexto, utilizam uma fotografia antiga como se fosse atual ou apresentam uma opinião como se fosse uma notícia confirmada.

foto de michelle guimarães

Também podem reproduzir a identidade visual de jornais conhecidos, atribuir declarações nunca feitas a autoridades e divulgar resultados falsos de pesquisas eleitorais. Em outros casos, um título exagerado distorce uma reportagem verdadeira para provocar revolta ou medo.

O Tribunal Superior Eleitoral chama a atenção para cinco características da desinformação: volume, variedade, velocidade, viralidade e verossimilhança. Em outras palavras, a mentira circula em grande quantidade, aborda diferentes assuntos, espalha-se rapidamente, alcança muitas pessoas e costuma parecer verdadeira.

É justamente a aparência de verdade que engana. Uma mensagem bem escrita, acompanhada por fotografia, número ou logotipo, não é necessariamente confiável. Um vídeo também não é uma prova absoluta, pois imagens podem ser cortadas, alteradas ou retiradas de seu contexto original.

Inteligência artificial aumenta o desafio.

Um dos maiores riscos das eleições de 2026 é o uso indevido da inteligência artificial. Atualmente, ferramentas digitais conseguem reproduzir rostos, vozes e movimentos com um nível de realismo capaz de confundir até pessoas acostumadas com a internet.

São as chamadas deepfakes: vídeos, imagens ou áudios manipulados para fazer alguém parecer dizer ou fazer algo que nunca aconteceu. Uma candidata pode aparecer anunciando uma proposta inexistente. Um político pode ter a voz clonada para confessar um crime que não cometeu. Uma autoridade pode surgir em uma gravação falsa contestando o resultado das urnas.

Para enfrentar esse problema, o TSE estabeleceu regras específicas para a campanha de 2026. Conteúdos eleitorais produzidos ou significativamente alterados por inteligência artificial devem trazer essa informação de maneira explícita, destacada e acessível. Também existem proibições para materiais fabricados ou manipulados com a intenção de disseminar fatos falsos ou descontextualizados que prejudiquem candidaturas ou a integridade da eleição.

Mesmo assim, nenhuma norma conseguirá substituir completamente a atenção de quem recebe o conteúdo.

O que deve despertar desconfiança.

A primeira providência diante de uma mensagem alarmante é conter o impulso de compartilhá-la. Conteúdos falsos costumam ser construídos para provocar reações imediatas. Quanto maior a indignação, o medo ou a sensação de urgência, menor tende a ser o cuidado antes do envio.

Frases como “a imprensa não vai mostrar”, “compartilhe antes que apaguem”, “repasse para todos”, “isso acabou de acontecer” ou “fonte segura, mas não posso revelar” devem acender um sinal de alerta.

Também é preciso desconfiar de textos sem autor, data, local ou indicação da fonte original. Erros grosseiros de português, endereços eletrônicos estranhos e logotipos deformados são outros indícios, embora materiais falsos também possam apresentar excelente qualidade visual.

Uma publicação possuir milhares de curtidas ou ter sido encaminhada muitas vezes não comprova sua veracidade. A popularidade mede o alcance de um conteúdo, não a sua relação com os fatos.

Como verificar antes de compartilhar.

Antes de encaminhar uma informação eleitoral, procure responder a algumas perguntas:

  • Quem publicou o conteúdo originalmente?
  • Existe autor, data e local claramente identificado?
  • As informações aparecem em outros veículos jornalísticos confiáveis?
  • O título corresponde ao conteúdo completo ou tenta apenas provocar indignação?
  • A fotografia é atual e realmente pertence ao acontecimento descrito?
  • O vídeo está completo ou apresenta cortes que podem mudar o sentido das falas?
  • A pesquisa eleitoral informa o instituto responsável, o período da coleta, a margem de erro e o registro na Justiça Eleitoral?
  • O material produzido por inteligência artificial está devidamente identificado?

Uma busca por palavras-chave pode revelar se outros veículos publicaram a mesma informação. Fotografias também podem ser pesquisadas por imagem para descobrir quando apareceram pela primeira vez. No caso de declarações atribuídas a candidatos, vale procurar a entrevista completa, o discurso original ou os canais oficiais da pessoa mencionada.

Quando a dúvida envolver as urnas, o calendário eleitoral, o título de eleitor ou as regras da votação, a fonte prioritária deve ser o Tribunal Superior Eleitoral. Informações também podem ser comparadas com agências profissionais de checagem.

Foto de  Mizuno K 

Cuidado com as “verdades” que confirmam nossas crenças.

Existe ainda uma armadilha silenciosa: tendemos a acreditar mais facilmente nas informações que confirmam aquilo que já pensamos. Quando uma publicação ataca o candidato de quem não gostamos ou elogia aquele que apoiamos, a vontade de acreditar pode falar mais alto do que a prudência.

Combater a desinformação exige verificar inclusive aquilo que gostaríamos que fosse verdade.

O compromisso com os fatos não pode depender da preferência partidária. Uma mentira contra um adversário político continua sendo mentira. Defender uma candidatura não autoriza ninguém a inventar dados, alterar imagens, retirar frases de contexto ou destruir reputações.

Também precisamos evitar transformar todas as divergências em falsidade. Opiniões, interpretações e propostas políticas podem ser discutidas e contestadas. Fake news é uma informação falsa ou manipulada apresentada como se fosse verdadeira. Saber distinguir opinião de fato é essencial para que o debate democrático não seja substituído por acusações vazias.

Como não se tornar parte da mentira.

Não é preciso produzir uma notícia falsa para contribuir com ela. Cada compartilhamento aumenta o alcance e empresta ao conteúdo a confiança pessoal de quem o envia.

Quando recebemos uma mensagem de um parente, pensamos: “Se veio dele, deve ser verdade”. É assim que a credibilidade das relações humanas acaba sendo utilizada para espalhar desinformação.

Se você enviou algo e depois descobriu que era falso, a atitude responsável é corrigir publicamente. Avise as mesmas pessoas, no mesmo grupo ou na mesma rede em que divulgou a informação. Apagar silenciosamente pode não ser suficiente, pois outras pessoas talvez já tenham repassado o conteúdo.

Reconhecer um erro não diminui ninguém. Ao contrário, demonstra honestidade e respeito. O verdadeiro problema é insistir na mentira depois que os fatos foram apresentados.

Na dúvida, não compartilhe. O silêncio de alguns segundos pode impedir que uma falsidade alcance centenas de pessoas.

O voto precisa ser uma escolha livre

A preocupação com as fake news não se resume à reputação de candidatos. A desinformação pode confundir o eleitor sobre o dia e o local da votação, divulgar regras inexistentes, desacreditar sem provas o sistema eleitoral, incentivar violência política e provocar hostilidade contra jornalistas, servidores públicos, candidatos e cidadãos.

Também pode afastar pessoas do debate democrático. Quando tudo parece falso, surge a sensação de que nenhuma fonte merece confiança. Esse cansaço favorece justamente quem deseja manipular o eleitorado.

Democracia não significa pensar da mesma maneira. Significa poder discordar com base em fatos, conhecer propostas diferentes e fazer uma escolha sem fraude, intimidação ou manipulação.

Nas eleições de 2026, cada brasileiro terá o direito de escolher seus representantes. Mas esse direito vem acompanhado de uma responsabilidade diária: não permitir que o medo, a pressa ou a paixão política transformem o próprio celular em uma ferramenta de mentira.

Antes de apertar o botão “encaminhar”, é preciso respirar, pesquisar e pensar nas pessoas que receberão aquela mensagem. Afinal, proteger a verdade durante uma eleição também é proteger a liberdade do voto.

Fontes: Tribunal Superior Eleitoral — regras sobre inteligência artificial em 2026, campanha “V de Verdade” e calendário das Eleições 2026

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