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São Bernardo do Campo e Copacabana foram escolhidas como cenários simbólicos para a abertura de uma disputa eleitoral marcada pela polarização e por estratégias distintas.
Por Regina Papini Steiner – A Chama
A campanha presidencial de 2026 começou a ocupar as ruas brasileiras. No domingo, 16 de agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou sua candidatura à reeleição em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, enquanto o senador Flávio Bolsonaro realizou seu primeiro ato oficial de campanha na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Os dois eventos não foram apenas encontros com apoiadores. A escolha dos locais revelou parte da estratégia de cada candidatura e antecipou os símbolos, discursos e públicos que deverão ocupar o centro da disputa eleitoral até outubro.
Lula retornou ao espaço onde construiu parte decisiva de sua trajetória política. Flávio Bolsonaro escolheu um dos principais palcos das manifestações conservadoras realizadas nos últimos anos. De um lado, a memória do movimento sindical e das greves operárias. Do outro, a tentativa de preservar o eleitorado mobilizado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Lula retorna às origens no ABC Paulista
Lula escolheu o Estádio Primeiro de Maio, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, para iniciar oficialmente sua campanha. O local está diretamente ligado às grandes assembleias dos metalúrgicos do ABC no final da década de 1970, período em que o atual presidente se projetou como liderança sindical e política.
A escolha procura reafirmar a identidade de Lula como representante dos trabalhadores. Segundo a Reuters, a campanha pretende reconstruir os vínculos do Partido dos Trabalhadores com uma classe trabalhadora que mudou profundamente nas últimas décadas.
O operário das grandes fábricas, sindicalizado e protegido por contratos formais, deixou de representar sozinho o universo do trabalho. Hoje, milhões de brasileiros vivem de aplicativos, entregas, serviços temporários, pequenos negócios e ocupações sem proteção previdenciária.
Esse novo perfil representa um desafio para Lula e para o PT. Parte dos trabalhadores de aplicativos deseja direitos e proteção social, mas também teme que novas regulamentações reduzam sua autonomia ou seus rendimentos. A campanha precisará demonstrar como pretende garantir segurança sem eliminar a flexibilidade valorizada por muitos desses profissionais.
No ato em São Bernardo, Lula procurou resgatar sua história e reforçar compromissos com emprego, renda e proteção social. A escolha da Vila Euclides também transmite uma mensagem política: o presidente pretende apresentar sua candidatura como continuidade de uma trajetória iniciada entre trabalhadores e movimentos populares.
O simbolismo do retorno ao ABC, foi interpretado como uma tentativa de reapresentar Lula às novas gerações, aproximando sua história sindical dos desafios atuais enfrentados pela juventude e pelos trabalhadores informais.
Flávio Bolsonaro escolhe Copacabana
Enquanto Lula buscava suas origens políticas no ABC Paulista, Flávio Bolsonaro iniciou sua campanha na praia de Copacabana. O local tornou-se, nos últimos anos, um dos principais pontos de concentração de apoiadores do bolsonarismo.

Do alto de um trio elétrico, o senador discursou usando um colete à prova de balas sob uma camiseta verde e amarela. A imagem reforçou dois elementos centrais de sua campanha: a defesa de uma política de segurança mais rígida e a tentativa de herdar a identidade política construída por seu pai.
A cobertura da CartaCapital registrou que o próprio candidato reconheceu a dificuldade de comparação com Jair Bolsonaro ao recorrer a uma metáfora envolvendo Pelé e seu filho. A declaração expõe um dos principais desafios de Flávio: transformar a herança familiar em uma candidatura com identidade própria.
Sua plataforma busca priorizar segurança pública, combate ao crime organizado, redução do tamanho do Estado e maior liberdade econômica. A Reuters informou que a campanha vem incorporando economistas e profissionais ligados ao governo anterior, entre eles o ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida.
A equipe também trabalha na formulação de uma proposta fiscal mais rígida, associada ao controle da dívida pública e à limitação do crescimento das despesas federais. Os detalhes ainda precisam ser apresentados de maneira mais clara ao eleitorado.
O Brasil 247 descreveu o ato de Copacabana como menor do que as grandes manifestações anteriormente organizadas pelo bolsonarismo. Essa avaliação, porém, deve ser compreendida dentro da linha editorial do veículo. A dimensão de um comício, isoladamente, não determina a força eleitoral de uma candidatura, especialmente em uma campanha na qual as redes sociais possuem enorme capacidade de mobilização.
Dois lugares e duas narrativas
São Bernardo do Campo e Copacabana representam universos políticos diferentes.
A Vila Euclides remete às greves operárias, à organização sindical e ao surgimento do PT. Copacabana está associada às manifestações conservadoras, às pautas de segurança e aos atos de apoio a Jair Bolsonaro.
Os locais foram escolhidos para despertar memórias e sentimentos. As campanhas não vendem apenas propostas; também constroem narrativas. Lula deseja ser reconhecido como o trabalhador que chegou à Presidência e ainda mantém ligação com suas origens. Flávio procura apresentar-se como o continuador de um movimento político que permanece ativo mesmo sem a presença direta do ex-presidente nas ruas.
A disputa também aparece na estética dos eventos. Em São Bernardo, prevaleceu o apelo à história do movimento popular. No Rio, destacaram-se o verde e amarelo, o discurso conservador e a ligação familiar com Jair Bolsonaro.
Mas símbolos não substituem programas de governo. Nos próximos meses, os candidatos precisarão explicar como pretendem enfrentar problemas concretos: custo de vida, segurança pública, emprego, saúde, educação, juros elevados, dívida pública, mudanças climáticas e desigualdade.
Pesquisas indicam disputa apertada
Levantamentos divulgados às vésperas do início da campanha apontaram Lula na liderança, mas mostraram redução da distância em relação a Flávio Bolsonaro.
Segundo pesquisa BTG Pactual/Nexus citada pela Reuters, o presidente mantinha uma vantagem estreita sobre o senador em uma eventual disputa de segundo turno. Outro levantamento, realizado pela Quaest, também indicou aproximação entre os dois candidatos.
Pesquisas eleitorais representam o retrato de um momento, e não uma previsão definitiva. Ainda assim, os números revelam que a eleição tende a ser competitiva e marcada por forte polarização.
O desafio de Lula é recuperar eleitores insatisfeitos com a economia e ampliar sua presença entre jovens, trabalhadores informais e setores religiosos. Flávio precisa reduzir sua rejeição, conquistar eleitores além da base bolsonarista e demonstrar que possui propostas próprias para governar o país.
A disputa também será digital
Embora os atos presenciais tenham valor simbólico, uma grande parte da campanha ocorrerá nas redes sociais. Vídeos curtos, jingles, transmissões ao vivo, influenciadores e conteúdos produzidos para aplicativos deverão ter papel decisivo.
O Brasil 247 apontou que Lula liderou o número de menções nas redes após a abertura da campanha. Isso não significa necessariamente vantagem consolidada, pois volume de comentários pode incluir manifestações positivas e negativas.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, conta com uma base digital fortemente engajada. O bolsonarismo demonstrou, em eleições anteriores, capacidade de distribuir mensagens rapidamente e transformar pautas específicas em grandes mobilizações virtuais.
A campanha digital também amplia o risco de desinformação. Imagens retiradas de contexto, números sem comprovação e vídeos manipulados podem interferir na percepção dos eleitores. O público precisará diferenciar propaganda, opinião e informação jornalística.
O início de uma disputa decisiva
Os atos em São Bernardo do Campo e Copacabana mostraram que a campanha de 2026 será construída por meio de símbolos fortes e visões distintas sobre o Brasil.
Lula busca unir sua trajetória histórica a uma promessa de renovação e proteção social. Flávio Bolsonaro procura preservar a força política do sobrenome, defender uma agenda conservadora e apresentar-se como alternativa ao atual governo.
A presença dos candidatos nas ruas é importante porque aproxima a política da população. Entretanto, a democracia exige mais do que discursos, bandeiras e multidões. O eleitor precisa conhecer os planos de governo, comparar propostas, verificar informações e cobrar respostas para os problemas reais do país.
A campanha começou nos palcos simbólicos de dois grandes centros urbanos. Até outubro, porém, será necessário percorrer um Brasil muito mais amplo, desigual e complexo do que aquele mostrado em qualquer comício.
Referências:
- Reuters — Lula lança campanha à reeleição e busca recuperar vínculo com trabalhadores
- Reuters — campanha de Flávio Bolsonaro incorpora Sachsida e nomes do mercado
- Reuters — pesquisa aponta liderança apertada de Lula
- CartaCapital — Lula resgata suas origens e Flávio aposta no legado familiar
- CartaCapital — primeiro ato de Flávio Bolsonaro em Copacabana
- Brasil 247 — Lula lidera menções nas redes após abertura da campanha
- Brasil 247 — cobertura do primeiro ato de Flávio Bolsonaro
