Maioria nas urnas, mulheres ainda disputam espaço nas decisões políticas.

Com mais de 83 milhões de eleitoras, mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro. O desafio agora é transformar maioria numérica em participação política capaz de influenciar as pautas que chegam ao poder.

Por Luzana Freitas| A Chama

Fonte: Reprodução

Durante décadas, votar foi um direito negado às mulheres brasileiras. Hoje, quase um século depois da conquista do voto feminino, elas não apenas ocupam as urnas: são maioria entre as pessoas aptas a votar no país.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o eleitorado feminino alcança 83.877.126 mulheres em 2026, o equivalente a 52,84% do eleitorado nacional. Os homens representam 47,16%.

Os números revelam uma força eleitoral que vai muito além da estatística. Em uma democracia, milhões de votos podem determinar quais projetos avançam, quais políticas públicas recebem prioridade e quem ocupará os espaços de decisão.

Mas existe uma questão que merece ser feita: se as mulheres são maioria entre os eleitores, quanto desse poder está efetivamente sendo utilizado para defender as pautas que impactam suas próprias vidas?

Votar também é escolher quais pautas terão voz

O voto não se resume à escolha de um nome. Antes de apertar a urna, existe uma decisão sobre quais propostas, compromissos e prioridades merecem ser levados adiante.

Para as mulheres, isso significa observar como candidatas e candidatos se posicionam diante de temas que fazem parte da realidade feminina: violência doméstica, feminicídio, saúde da mulher, maternidade, creches, educação, igualdade salarial, autonomia econômica, participação política e combate à violência de gênero.

A escolha, portanto, não precisa ser orientada apenas por partido, discurso ou propaganda eleitoral. É possível olhar para as propostas e perguntar: quem está falando sobre aquilo que afeta diretamente a minha vida? Quem apresenta soluções? Quem tem histórico de atuação sobre o tema?

Essa análise transforma o voto em uma ferramenta de participação política.

Maioria eleitoral, minoria nos espaços de poder

Existe, porém, uma contradição na democracia brasileira.

Embora as mulheres sejam maioria entre os eleitores, continuam sub-representadas nos cargos eletivos. Nas eleições municipais de 2024, por exemplo, apenas 18% das pessoas eleitas eram mulheres, segundo dados apresentados pelo próprio TSE.

Em 2024, apenas 733 dos 5.569 municípios brasileiros elegeram prefeitas, de acordo com dados divulgados pelo TSE. No Congresso Nacional, a bancada feminina representa cerca de 18% dos parlamentares.

A diferença entre esses números levanta uma discussão importante: as mulheres são maioria para escolher, mas ainda são minoria entre aqueles que decidem.

Isso não significa que toda mulher precise votar em uma mulher. A democracia não deve reduzir a escolha eleitoral ao gênero de quem disputa uma eleição. O ponto central é outro: que as eleitoras conheçam as propostas e avaliem quem efetivamente defende os temas que consideram importantes.

O voto feminino nasceu de uma luta

O direito ao voto feminino no Brasil foi conquistado em 24 de fevereiro de 1932, com o Código Eleitoral instituído pelo Decreto nº 21.076.

A conquista, entretanto, não nasceu pronta e igualitária. Inicialmente, havia restrições à participação feminina. O TSE destaca que, naquele período, algumas mulheres precisavam cumprir determinadas condições relacionadas à situação civil e à renda. Em 1934, essas restrições foram eliminadas do Código Eleitoral; em 1946, o alistamento eleitoral passou a ser obrigatório também para as mulheres.

Quase cem anos depois, a pergunta já não é apenas se a mulher pode votar.

Ela pode — e é maioria.

A questão contemporânea é o que fará com essa força.

De eleitoras a protagonistas

A participação política feminina não termina no dia da eleição. Ela começa muito antes.

Conhecer as propostas, acompanhar o trabalho de quem foi eleito, cobrar promessas, participar de debates públicos, questionar políticas e exigir transparência também são formas de exercer cidadania.

O voto pode ser pensado como o início de uma relação entre sociedade e representantes — e não como o fim dela.

Para a eleitora, isso significa entender que seu voto não precisa ser tratado como uma obrigação burocrática ou como uma escolha feita apenas pela tradição familiar, pela influência das redes sociais ou pela propaganda.

Votar é escolher quem receberá o poder de decidir em seu nome.

E quando mais de 83 milhões de mulheres têm esse poder, o eleitorado feminino deixa de ser apenas um segmento da população e passa a ocupar uma posição central na democracia brasileira.

A história conquistou às mulheres o direito de entrar na cabine de votação. O presente coloca outro desafio: usar essa voz para participar das decisões que definem o futuro.

A pergunta que fica

Se as mulheres são maioria nas urnas, talvez a discussão não deva ser apenas sobre quem elas vão eleger, mas também sobre quais pautas querem ver representadas no poder.

Porque voto feminino não é apenas quantidade.

É voz.

É escolha.

É cobrança.

E, sobretudo, é poder político.