Elize Matsunaga e a violência que escolhemos lembrar.

Enquanto uma mulher condenada continua sendo tema de documentários e debates mais de uma década depois do crime, milhares de homens condenados por violência doméstica desaparecem do imaginário coletivo. O novo documentário da Netflix reacende um caso criminal, mas também escancara um questionamento: nossa sociedade julga crimes da mesma forma quando o autor é uma mulher?

Por Luzana Freitas | A Chama

Fonte: Reprodução

O retorno do caso Elize Matsunaga ao catálogo da Netflix reacendeu um dos episódios criminais mais emblemáticos da história recente do Brasil. Mais de dez anos após o assassinato do empresário Marcos Matsunaga, a repercussão demonstra que o interesse público permanece vivo. Mas a nova produção também convida a uma reflexão que vai além das páginas policiais: por que algumas pessoas permanecem eternamente condenadas pela opinião pública enquanto outras desaparecem da memória coletiva?

É necessário estabelecer um ponto de partida incontestável: homicídio é crime. Elize Matsunaga foi julgada, condenada e responsabilizada pela Justiça brasileira pelo assassinato e ocultação do cadáver de Marcos Matsunaga. O processo seguiu o devido rito legal e resultou em uma condenação. Nenhuma circunstância elimina essa responsabilidade.

Entretanto, reconhecer a gravidade do crime não impede que se analise o tratamento social dado ao caso. A repercussão permanente em torno de Elize revela um fenômeno conhecido pelas ciências sociais: mulheres que cometem crimes violentos costumam despertar um julgamento moral mais duradouro porque rompem expectativas históricas de gênero.

Durante séculos, a figura feminina foi associada ao cuidado, à maternidade, à delicadeza e à submissão. Quando uma mulher ocupa o lugar de autora da violência, ela não apenas viola a lei, mas também desafia um papel social profundamente enraizado. O resultado é uma condenação que frequentemente ultrapassa os limites do Judiciário e se perpetua na memória coletiva.

O contraste fica evidente quando observamos a violência praticada por homens. Todos os dias, o Brasil registra casos de agressões contra mulheres, feminicídios e violência doméstica. Muitos desses crimes ocupam as manchetes por alguns dias e, posteriormente, seus autores deixam de ser lembrados pelo grande público.

Essa diferença de tratamento não significa que homens sejam menos responsabilizados criminalmente. O problema está na memória social. Enquanto Elize Matsunaga continua sendo revisitada em séries, documentários, entrevistas e debates, inúmeros homens condenados por violência contra mulheres desaparecem do imaginário coletivo, apesar de integrarem uma realidade muito mais frequente.

Outro aspecto que inevitavelmente volta ao debate é a violência doméstica. Ao longo dos anos, vieram a público relatos sobre um relacionamento marcado por conflitos, controle e possíveis episódios de violência psicológica. Ainda que essas alegações não alterem a responsabilidade penal pelo homicídio, elas ajudam a compreender a complexidade das relações abusivas e reforçam um aspecto essencial: entender o contexto de um crime não significa justificá-lo.

É justamente nesse ponto que o debate precisa amadurecer. A sociedade costuma oscilar entre dois extremos: transformar Elize em vítima absoluta ou reduzi-la apenas à autora do crime. Nenhuma dessas visões, isoladamente, explica a complexidade do caso. O papel do jornalismo é justamente romper com narrativas simplistas e oferecer contexto sem perder de vista os fatos.

Também é preciso questionar o papel da indústria do entretenimento. Produções baseadas em crimes reais despertam enorme audiência porque exploram emoções humanas como medo, curiosidade e indignação. No entanto, quando determinadas histórias são revisitadas repetidamente, elas moldam a memória coletiva. E essa memória nem sempre é construída de maneira equilibrada.

Talvez a pergunta mais importante não seja por que ainda falamos de Elize Matsunaga, mas por que deixamos de falar com a mesma intensidade sobre os milhares de agressores que continuam produzindo vítimas diariamente.

O verdadeiro desafio não está em decidir quem merece ser lembrado, mas em compreender por que nossa sociedade parece tratar a violência de forma diferente quando ela é praticada por uma mulher. Se o espanto diante de um crime feminino ainda é maior do que diante da violência masculina cotidiana, talvez o problema não esteja apenas nas manchetes, mas nos valores culturais que determinam quais histórias permanecem vivas e quais são rapidamente esquecidas.

O novo documentário da Netflix não revisita apenas um crime. Ele expõe um espelho desconfortável da sociedade brasileira: um país que ainda reage com mais perplexidade à mulher que mata do que ao homem que agride. Refletir sobre isso não é relativizar a responsabilidade de quem comete um homicídio, mas reconhecer que justiça e memória coletiva nem sempre caminham lado a lado.