Listas de comerciantes, campanhas de boicote e ameaças de demissão por posicionamento político reacendem um alerta histórico: o que acontece quando a divergência deixa de ser debatida e passa a ser motivo de perseguição?
Por Luzana Freitas | A Chama

A história não precisa se repetir exatamente da mesma forma para que suas lições sejam ignoradas.
Em outubro de 2026, listas de estabelecimentos comerciais cujos proprietários seriam eleitores ou apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva passaram a circular nas redes sociais e em aplicativos de mensagens. Os episódios foram noticiados em diferentes regiões do país, incluindo cidades do Rio Grande do Sul, do Paraná e de Minas Gerais.
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 28 de outubro, apoiadores de Flávio Bolsonaro também divulgaram listas de empresas supostamente favoráveis a Lula e incentivaram boicotes e demissões de trabalhadores identificados com o Partido dos Trabalhadores. O movimento evidencia como a polarização eleitoral pode ultrapassar o debate público e alcançar o cotidiano de trabalhadores e pequenos empreendedores.
Mas o que acontece quando o voto deixa de ser uma escolha individual e passa a ser tratado como motivo para constranger, expor ou prejudicar alguém economicamente?
O alerta que vem da história
Em 1º de abril de 1933, poucos meses depois de Adolf Hitler assumir o poder na Alemanha, o regime nazista organizou um boicote nacional contra estabelecimentos comerciais e profissionais judeus. Os nazistas produziram listas, identificaram negócios e incentivaram a população a não comprar de judeus.
De acordo com o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos, aquela ação marcou o início de uma campanha nacional organizada de exclusão da população judaica da sociedade alemã. Posteriormente, a perseguição avançou por meio de leis discriminatórias, expulsões profissionais, violência e outras medidas que culminaram no Holocausto.
É fundamental reconhecer a diferença entre os contextos. As listas que circulam atualmente no Brasil não são, por si só, equivalentes à perseguição antissemita promovida pelo Estado nazista. A dimensão histórica, política e humana dos acontecimentos na Alemanha foi muito mais grave.
Ainda assim, a história oferece elementos para refletir sobre os mecanismos de identificação pública e exclusão econômica utilizados para transformar determinados grupos em alvos.
Quando uma pessoa passa a ser considerada indigna de comprar, vender ou trabalhar simplesmente por pertencer a determinado grupo, a discussão deixa de ser apenas sobre preferência política e passa a envolver os limites da convivência democrática.
Quando a fidelidade política supera a convivência
O fenômeno também levanta questionamentos sobre a relação de parte dos apoiadores políticos com suas lideranças.
A admiração por um candidato ou a identificação com um partido fazem parte da democracia. O problema surge quando a fidelidade política se transforma em intolerância diante de quem escolhe diferente.
O direito de criticar um comerciante por uma declaração pública não equivale à autorização para espalhar informações falsas sobre ele, ameaçá-lo ou atribuir-lhe posicionamentos sem comprovação.
Da mesma forma, consumidores têm liberdade para escolher onde comprar. O debate está nos métodos empregados, especialmente quando campanhas incentivam a exposição pública de pessoas, a intimidação ou a retaliação contra trabalhadores.
A reportagem da GZH, publicada em 27 de outubro, registrou a circulação de listas de boicote no Rio Grande do Sul e reproduziu a preocupação do Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes com os efeitos dessas iniciativas sobre estabelecimentos, funcionários, fornecedores e famílias.
Em pequenos negócios, as consequências de um boicote prolongado podem ultrapassar a pessoa que motivou a campanha. Funcionários que não participaram de nenhuma disputa política também podem sofrer com a redução das vendas e a perda de renda.
O voto não deveria determinar quem merece trabalhar
A democracia pressupõe a possibilidade de discordar sem transformar o adversário político em inimigo social.
Isso vale para eleitores de esquerda, de direita e de qualquer outra corrente política. A liberdade de expressão protege a manifestação de opiniões, mas não torna automaticamente legítimas ameaças, assédio ou a divulgação de informações falsas.
Também é necessário distinguir o boicote voluntário, que pode ser uma forma legítima de manifestação do consumidor, de práticas de intimidação e perseguição. A avaliação jurídica depende das circunstâncias concretas de cada caso.
Quando a disputa política chega ao comércio, uma pergunta precisa ser feita: estamos defendendo nossas convicções ou tentando impor nossas escolhas aos outros?
Conhecer a história não significa afirmar que todo conflito atual reproduz o nazismo. Significa compreender que a exclusão social e econômica pode assumir diferentes formas e que os episódios precisam ser examinados com responsabilidade.
A história não se repete necessariamente da mesma maneira. Mas, quando a intolerância é normalizada, o passado deixa de ser apenas uma lembrança e passa a ser um alerta.
Se o direito de escolher um candidato é individual, por que o voto de alguém deveria se transformar em sentença pública contra seu trabalho, seu negócio ou sua dignidade?
