O diário de um patriota fujão

No finzinho do debate da Band, no dia 18 de outubro, Lula lançou uma cartada que colocou Flávio Bolsonaro em xeque: abrir todos os dados sigilosos da família. Afinal, quem não deve, não teme. Uma lógica difícil de se esquivar. Mas não para o ensaboado Flávio que, depois de criar mil desculpas, passou o resto da campanha se evadindo da proposta.

Logo ele, que teve que se explicar sobre os inquéritos ativos no STF: o financiamento do filme Dark Horse (com repasses estimados em mais de R$ 100 milhões, negociados com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro), a lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz e as bets, e a investigação por calúnia e injúria após associar Lula ao tráfico. Tudo sob o olhar da Justiça.

A campanha de Flávio estava crente que venceria no dia 25. Mas não foi o que o povo brasileiro quis, como confirmou o TSE às 21h08. Sete minutos depois, a Polícia Federal formalizou o pedido de retenção dos passaportes do senador, agora matematicamente derrotado.

Na manhã seguinte, na saída de uma visita ao pai (preso em regime domiciliar), a PF o notifica formalmente sobre o recolhimento dos documentos. Passou a segunda-feira inteira dizendo que a medida era um absurdo, que jamais fugiria e que iria mover céus e terra contra a chapa vencedora. Fez o escarcéu que um homem de sua posição sempre faz e que o séquito adora.

No fim da tarde, o advogado Frederick Wassef é visto entrando no condomínio de Flávio. Os jornais imaginaram que tratariam da defesa do “Zero Um”. Nada disso. Pelo que se seguiu, eles estavam planejando uma viagem bem longe das mãos da Lei, mas bem perto do abraço da impunidade.

Na terça-feira, a imprensa argentina acorda em polvorosa: o senador (que tem foro privilegiado até 1º de fevereiro de 2027) teria cruzado a fronteira clandestinamente. O que era boato ficou difícil de sufocar quando o aliado Rogério Marinho admitiu ter perdido o contato com o ex-presidenciável. O prazo expirou, a PF cancelou os documentos.

Mas nada disso importa. Agências internacionais confirmam a chegada do homem que 59.826.041 pessoas votaram para representar o país. Ele está nos EUA com a esposa e as filhas. O Departamento de Estado americano deu guarida ao sujeito que, por 4,5 milhões de votos, não foi eleito. Agora, ele está a um passo de se tornar foragido, dependendo do que Alexandre de Moraes decidir sobre a prisão preventiva.

Flávio Bolsonaro tem muito a se explicar para a justiça, mas preferiu não fazer isso aqui pelo menos. Resta nos perguntarmos como vai se manter nos Estados Unidos agora, e talvez seja esse o motivo da fuga, ou seja, será que todas aquelas suspeitas tinham fundamento? Ele escolheu um jeito muito difícil de resolver essa história.

Os próximos capítulos dessa história ainda serão escritos da forma que só o roteirista do Brasil é capaz: com muitas reviravoltas, surpresas e a certeza de que por aqui se morre de tudo, menos de tédio.

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