O eleitor saiu da TV e foi para o TikTok: a política está preparada para encontrá-lo?

Entre vídeos curtos, influenciadores, desconfiança e excesso de informação, uma nova geração não deixou necessariamente de se interessar por política — ela mudou a maneira de consumi-la. Para as próximas eleições, o desafio será transformar atenção digital em participação democrática.

Por Luzana Freitas | A Chama

Fonte: Reprodução

A política brasileira ainda fala muito com o eleitor do horário eleitoral. O problema é que uma parcela cada vez maior do eleitorado já não vive nesse ritmo.

Ela vive no vídeo de 30 segundos, no comentário, no meme, no podcast, no corte de entrevista, no influenciador que explica um assunto complexo enquanto prepara o café e no algoritmo que decide qual será o próximo conteúdo visto.

É o eleitor que poderíamos chamar, para fins de análise, de “eleitor TikTok”.

Não necessariamente porque todo jovem vote pelo TikTok, mas porque ele representa uma mudança mais profunda: a forma de consumir informação política passou a ser marcada pela velocidade, pelo audiovisual, pela personalização e pela disputa permanente pela atenção.

E isso muda também o desafio das próximas eleições.

Não é que a política tenha desaparecido. Ela mudou de lugar.

Dados recentes do Reuters Institute mostram que o consumo de notícias no Brasil continua migrando para plataformas digitais e redes sociais. Em 2026, o instituto apontou que os meios tradicionais seguem perdendo espaço, enquanto as redes sociais e os vídeos permanecem importantes para o acesso à informação.

Entre jovens de 18 a 24 anos, essa transformação é ainda mais evidente. Em uma análise publicada pelo Reuters Institute em 2026, as redes sociais aparecem como principal porta de entrada para notícias desse público, com Instagram, YouTube e TikTok ocupando espaço muito maior do que o Facebook ocupava uma década atrás.

O dado mais importante talvez não seja o crescimento de uma plataforma específica.

É a mudança de comportamento.

O jovem não necessariamente procura “notícia política”.

Ele encontra política enquanto assiste a um vídeo sobre emprego, violência, faculdade, transporte público, custo de vida, saúde mental, direitos das mulheres, racismo, segurança ou preço dos alimentos.

A política deixou de ser apenas uma editoria.

Ela virou parte do cotidiano digital.

O algoritmo também virou uma espécie de editor

Durante décadas, jornais, televisão e rádio exerciam enorme influência sobre quais assuntos chegavam ao público.

Hoje, essa seleção é compartilhada — e muitas vezes disputada — com algoritmos e criadores de conteúdo.

O Reuters Institute identificou uma fragmentação crescente do consumo de notícias e o fortalecimento de plataformas de vídeo. Em 2025, 16% da amostra global pesquisada declarou usar TikTok para notícias semanalmente, com índices especialmente relevantes entre públicos mais jovens. O relatório também chama atenção para o crescimento da influência de criadores, personalidades e influenciadores na formação do debate público.

No Brasil, o fenômeno ganha características próprias.

O país apresenta uma forte presença de criadores e influenciadores no ecossistema informativo. Segundo o Reuters Institute, 54% dos brasileiros pesquisados declararam consumir notícias pelas redes sociais semanalmente, enquanto políticos, comentaristas e personalidades digitais passaram a disputar atenção diretamente com veículos tradicionais.

Isso produz uma consequência política importante:

quem consegue explicar melhor pode ser ouvido antes de quem fala de maneira mais institucional.

E aqui está uma das grandes mudanças.

O eleitor não necessariamente quer menos informação.

Ele pode querer informação mais compreensível.

O problema não é apenas conquistar o voto. É conquistar atenção.

Uma campanha tradicional pode apresentar um candidato, seu número, seu partido e uma lista de propostas.

Mas, para uma geração acostumada a decidir em segundos se continua ou desliza para o próximo conteúdo, isso pode ser insuficiente.

A disputa eleitoral começa antes da urna.

Começa na atenção.

Um candidato pode ter uma proposta relevante, mas se ninguém entende a proposta, ela desaparece no fluxo de conteúdo.

Pode ter um plano para a educação, mas se fala durante dez minutos sobre ele sem conseguir traduzir como isso afeta a vida de um estudante, provavelmente perdeu a disputa pela atenção.

Pode apresentar um programa econômico de dezenas de páginas, mas o eleitor quer saber uma coisa mais simples:

“O que muda na minha vida?”

Essa pergunta talvez seja uma das mais importantes para compreender o eleitor contemporâneo.

Mas existe um risco: política não pode virar apenas entretenimento

Adaptar a comunicação ao ambiente digital não significa transformar eleição em campeonato de memes.

Esse é um dos principais dilemas da nova política.

O mesmo ambiente que aproxima o cidadão da informação também facilita a circulação de desinformação, conteúdos fora de contexto e discursos baseados mais em identidade do que em evidências.

O Reuters Institute já identificou no Brasil dificuldades significativas para diferenciar informação confiável de conteúdo enganoso nas plataformas digitais. Em pesquisa anterior, TikTok e X apareciam entre as redes consideradas mais difíceis de avaliar quanto à confiabilidade das notícias.

Portanto, o desafio não deveria ser simplesmente:

“Como conseguir mais visualizações?”

A pergunta deveria ser:

“Como transformar visualização em informação e informação em participação?”

A abstenção também conta essa história

Nas Eleições Gerais de 2022, 20,95% do eleitorado não compareceu ao primeiro turno. Foram mais de 32,7 milhões de pessoas. No segundo turno, a abstenção ficou em 20,56%.

Não é possível atribuir esse fenômeno exclusivamente aos jovens, às redes sociais ou à falta de interesse político.

Abstenção é um fenômeno complexo e envolve fatores econômicos, geográficos, sociais, eleitorais e circunstanciais.

Mas existe uma questão que merece ser enfrentada:

o que faz uma pessoa acreditar que vale a pena sair de casa para votar?

Essa pergunta é particularmente importante quando falamos de uma geração que cresceu desconfiando de instituições, acompanhando acontecimentos em tempo real e recebendo diariamente uma quantidade gigantesca de informação.

Em 2026, mais de 158 milhões de brasileiros estavam aptos a votar. O eleitorado, entretanto, não está ficando mais jovem. O TSE aponta aumento da participação proporcional das pessoas com 60 anos ou mais e redução relativa da faixa de 21 a 34 anos no eleitorado.

Isso significa que falar de “novo eleitor” não pode significar simplesmente falar de adolescentes.

O novo eleitor é também aquele que mudou sua relação com a informação.

Então, o que a política precisa mudar?

Não existe uma fórmula capaz de garantir mais votos ou menos abstenções. Mas os dados sobre consumo de informação apontam para mudanças que podem tornar a comunicação política mais acessível e compreensível.

1. Trocar o discurso pelo diálogo

O eleitor digital está acostumado a comentar, perguntar, contestar e responder.

Campanhas que apenas publicam propaganda podem perder a oportunidade de construir conversas.

É preciso abrir espaço para perguntas reais — inclusive perguntas difíceis.

2. Explicar propostas em vez de apenas anunciá-las

“Vamos melhorar a educação” diz pouco.

Onde? Como? Quanto custa? Em quanto tempo? Quem será beneficiado? Como será fiscalizado?

A comunicação política precisa transformar promessa em explicação.

3. Produzir conteúdo para diferentes plataformas

Não significa simplesmente pegar o horário eleitoral e colocar no TikTok.

Cada plataforma possui uma linguagem própria.

Vídeo curto pode despertar interesse. Podcast pode aprofundar. Instagram pode contextualizar. Um site pode apresentar documentos e propostas completas.

O eleitor pode entrar pela plataforma e chegar à informação aprofundada.

4. Mostrar bastidores e processos

A política costuma aparecer pronta.

Mas o cidadão precisa entender também como uma decisão é tomada, quanto custa uma política pública, quem fiscaliza, o que depende do Executivo e o que depende do Legislativo.

Educação política pode ser conteúdo.

E talvez seja justamente aí que comunicação e jornalismo tenham uma função decisiva.

5. Menos culto à personalidade, mais transparência

O crescimento dos influenciadores políticos mostra que personalidades conseguem mobilizar atenção.

Mas democracia não pode depender exclusivamente da capacidade de uma pessoa viralizar.

É necessário apresentar propostas, histórico político, votações, financiamento, alianças e resultados de maneira compreensível.

6. Combater a desinformação sem tratar o eleitor como incapaz

O eleitor não precisa apenas receber um “isso é fake”.

Ele precisa saber por que é falso, qual é a informação correta e como verificar.

Ensinar o cidadão a checar informação pode ser mais eficiente do que simplesmente pedir que ele confie em uma instituição.

7. Falar sobre problemas concretos

A nova geração pode não se identificar com discursos abstratos sobre “grandes projetos nacionais”.

Mas ela certamente encontra a política quando precisa pagar aluguel, procurar emprego, estudar, pegar transporte público, enfrentar violência, acessar saúde ou lidar com o custo de vida.

A política precisa mostrar a conexão entre decisões públicas e experiências cotidianas.

E o jovem de 16 anos?

Em 2026, o TSE registrou crescimento histórico recente do eleitorado de 16 e 17 anos: eram 1,4 milhão em 2018 e chegaram a mais de 2,1 milhões nas eleições de 2022. Nas eleições municipais de 2024, eram mais de 1,8 milhão. Para 16 e 17 anos, o voto continua facultativo.

Esse grupo representa algo maior do que um número eleitoral.

É uma geração que já entra na vida política formada em um ambiente em que informação, identidade e opinião pública são construídas também pelas redes.

Se a política quiser conversar com esse público apenas alguns meses antes da eleição, provavelmente estará chegando tarde.

Educação política não deveria começar na campanha.

Deveria começar antes.

A eleição do futuro será uma disputa pela confiança

O desafio das próximas eleições não será simplesmente descobrir qual rede social está na moda.

Hoje é TikTok. Amanhã pode ser outra.

A questão central é entender que o comportamento mudou.

O eleitor quer velocidade, mas também pode querer profundidade quando o assunto importa. Quer linguagem simples, mas não necessariamente respostas simplistas. Quer proximidade, mas também pode exigir transparência.

E existe uma contradição importante:

quanto mais fácil ficou falar com milhões de pessoas, mais difícil parece ter a confiança delas.

No Brasil, a confiança geral nas notícias permanece baixa. O Reuters Institute registrou 42% de confiança geral nas notícias em sua edição de 2025.

Por isso, talvez a política precise parar de perguntar apenas:

“Como ganhar o voto desse eleitor?”

E começar a perguntar:

“Por que esse eleitor deveria acreditar que sua participação fará diferença?”

Essa mudança de pergunta pode ser mais importante do que qualquer nova estratégia de TikTok.

Porque o eleitor da nova geração não está necessariamente ausente da política.

Ele está em outro lugar.

Está no celular, no vídeo curto, no comentário, no podcast, na conversa com o criador de conteúdo e no algoritmo.

A democracia, agora, precisa descobrir como chegar até ele sem transformar cidadania em espetáculo.

Porque conquistar um clique é fácil.

Conquistar atenção é mais difícil.

Mas conquistar confiança — e transformá-la em participação — talvez seja o verdadeiro desafio das próximas eleições.