Trump, as eleições brasileiras e a memória de 1964: quem decide o futuro do Brasil?

foto: por Michelle Guimarâes

Às vésperas da votação de outubro, a aproximação da Casa Branca com o bolsonarismo e a pressão dos EUA sobre instituições brasileiras exigem vigilância. Documentos da própria diplomacia americana mostram por que o país não pode tratar a soberania como uma formalidade.

Entenda por que a atuação de Donald Trump no debate eleitoral brasileiro reacende a discussão sobre soberania e o apoio dos EUA ao golpe de 1964.

Por Regina Papini Steiner | 18 de setembro de 2026 – A Chama

O voto brasileiro pertence aos brasileiros. Parece uma afirmação óbvia, mas ela ganha urgência quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comenta a política interna do país, recebe integrantes da família Bolsonaro e seu governo adota medidas que repercutem diretamente no debate eleitoral. Em junho, Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que Trump deveria manter distância das eleições brasileiras. Reconheceu que o presidente americano pode ter uma preferência política; rejeitou, porém, sua participação na disputa. Segundo a Reuters, a declaração veio após novas críticas de Trump ao ambiente político do Brasil.

Não se trata de proibir opiniões estrangeiras. O problema começa quando o poder de um Estado , sua capacidade de impor tarifas, sanções e pressões diplomáticas, entra no mesmo campo em que os cidadãos devem escolher livremente seus governantes. Reportagem da Agência Brasil registrou a avaliação do governo brasileiro de que a política tarifária americana foi politizada com as eleições em vista. Essa é uma avaliação do governo, que precisa ser identificada como tal. As medidas econômicas e seus efeitos sobre o país, por sua vez, são fatos que merecem escrutínio público.

A preocupação não surgiu apenas no Palácio do Planalto. Em artigo publicado na CartaCapital, o cientista político Roberto Amaral sustenta que Washington busca influenciar o resultado da disputa. No Intercept Brasil, João Filho argumenta que a imprensa deveria dar mais atenção à pressão americana sobre a democracia brasileira. São interpretações contundentes, que ajudam a formular a pergunta central desta eleição: até que ponto decisões tomadas em Washington podem afetar a liberdade política dos eleitores daqui?

A memória que não pode ser apagada

O Brasil já enfrentou uma ruptura democrática acompanhada de apoio dos Estados Unidos. Em 31 de março de 1964, enquanto avançava o movimento militar contra o presidente João Goulart, o Departamento de Estado americano comunicou à sua embaixada no Brasil decisões destinadas a permitir auxílio às forças contrárias a Goulart, caso Washington resolvesse prestá-lo. O telegrama hoje disponível no arquivo oficial dos EUA previa o envio de uma força naval, petroleiros e a preparação de munição e outros equipamentos para eventual transporte aéreo. A operação recebeu o nome de Brother Sam.

É preciso ser preciso também com a história: o documento comprova o planejamento e a mobilização de apoio americano; não autoriza afirmar que tropas dos EUA realizaram o golpe em território brasileiro. A deposição de Goulart foi conduzida por brasileiros, com o apoio de setores civis e militares nacionais. A disposição de Washington para auxiliar os adversários do presidente está registrada nos seus próprios arquivos. Outro memorando oficial, de 28 de março de 1964, mostra autoridades americanas discutindo seus contatos com forças contrárias a Goulart e possíveis ações diante da crise.

A lição de 1964 não é que a história se repetirá da mesma forma. O Brasil de hoje tem eleições, instituições e uma sociedade civil que conquistou, com enorme custo, o direito de contestar o poder. A lição é mais exigente: a soberania pode ser enfraquecida quando interesses externos encontram aliados internos dispostos a aceitar pressão sobre as decisões do país.

Em setembro de 2026, essa questão se apresenta em uma disputa apertada. Pesquisa Datafolha divulgada em 17 de setembro, conforme a Reuters, apontou Lula com 46% e Flávio Bolsonaro com 44% em um cenário de segundo turno. Pesquisa é um retrato do momento, não o resultado das urnas. Justamente por isso, nenhuma potência estrangeira deveria usar sua influência econômica ou diplomática para tentar inclinar a escolha dos eleitores.

Defender essa regra não exige apoiar Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outra candidatura. Exige reconhecer que governos brasileiros podem ser criticados, investigados e substituídos pelo voto brasileiro, conforme as leis brasileiras. A memória da ditadura impõe uma responsabilidade ao jornalismo: investigar cada medida, ouvir os envolvidos, distinguir documentos de suspeitas e dar nome à pressão quando ela existir.

Em outubro, caberá ao eleitor decidir o rumo do país. A Washington cabe respeitar essa decisão.

Fontes da matéria

Análises citadas: Roberto Amaral, na CartaCapital, e João Filho, no Intercept Brasil. Esses dois textos apresentam interpretações dos autores; os documentos históricos e as reportagens acima sustentam os fatos atribuídos na matéria.

Um comentário

  1. Trump quer como fez em Cuba e na Venezuela mandar no País e ditar as. “suas regras”.Aqui nãoooooooo. O Brasil é dos Brasileiros e SOBERANO.Ele que dite suas regras no seu País…Trump nojento…😡🤮😡🤮😡🤮😡

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