Tema que pode aparecer no ENEM ajuda a entender como desigualdade social e racial também estão presentes nos problemas ambientais
Por Luzana Freitas | A Chama

Quando uma forte chuva provoca uma enchente, a água não escolhe quem vai atingir. Mas os seus efeitos podem ser muito diferentes dependendo do lugar onde cada pessoa mora.
Enquanto alguns bairros contam com ruas asfaltadas, sistemas de drenagem, saneamento básico e áreas verdes, outros enfrentam alagamentos frequentes, falta de esgoto, acúmulo de lixo e pouca infraestrutura.
É nesse cenário que surge um conceito que pode aparecer nas discussões ambientais e sociais do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM): o racismo ambiental.
O que é racismo ambiental?
O termo é utilizado para explicar situações em que populações historicamente vulnerabilizadas, especialmente pessoas negras, indígenas e comunidades de baixa renda, ficam mais expostas a riscos ambientais e possuem menos acesso a recursos para se proteger deles.
A expressão não significa que toda enchente, poluição ou desastre ambiental seja causado diretamente por uma atitude racista.
A questão está na desigualdade.
Ao longo da história, determinados grupos tiveram menos acesso a moradia adequada, saneamento, infraestrutura urbana, áreas verdes e outros serviços básicos. Como resultado, muitas dessas populações acabam vivendo em regiões mais vulneráveis.
Quando o problema ambiental vira problema social
Uma chuva intensa é um fenômeno natural. Mas uma enchente pode se transformar em uma tragédia quando encontra uma cidade sem infraestrutura suficiente.
Para quem vive em uma área vulnerável, perder móveis, ter a casa invadida pela água ou ficar sem transporte pode significar também perder dias de trabalho ou de aula.
Em situações mais graves, famílias podem perder suas casas e até suas vidas.
Por isso, falar sobre meio ambiente também significa falar sobre moradia, renda, saúde, infraestrutura e políticas públicas.
Por que a população negra é afetada?
Para entender o racismo ambiental, é necessário olhar para a história do Brasil.
Durante séculos, milhões de pessoas negras foram escravizadas. Depois da abolição, em 1888, a população negra não recebeu as mesmas oportunidades de acesso à terra, moradia, educação e trabalho.
As desigualdades construídas ao longo desse processo deixaram marcas que ainda podem ser percebidas na sociedade brasileira.
Isso não significa que toda pessoa negra viva em uma área de risco ou que pessoas brancas não enfrentem problemas ambientais.
O ponto é observar quem está proporcionalmente mais vulnerável e por quais razões históricas e sociais.
Racismo ambiental não acontece somente nas enchentes
O conceito é mais amplo.
Ele também pode estar relacionado à falta de saneamento básico, dificuldade de acesso à água potável, poluição, ausência de áreas verdes, exposição a resíduos e temperaturas extremas, entre outros problemas.
Imagine dois bairros de uma mesma cidade durante uma onda de calor.
Um possui muitas árvores, praças e casas com boa estrutura. O outro tem pouco verde, muito concreto e infraestrutura precária.
A temperatura pode ser alta nos dois locais, mas a capacidade de enfrentar o calor não é necessariamente a mesma.
É por isso que especialistas e movimentos sociais defendem que as políticas ambientais precisam considerar também as desigualdades existentes nas cidades.
E o que isso tem a ver com o ENEM?
O ENEM costuma trabalhar temas de forma interdisciplinar. Uma questão sobre racismo ambiental pode envolver conhecimentos de Geografia, História, Sociologia, Meio Ambiente e atualidades.
Mais do que decorar uma definição, o estudante precisa entender a relação entre os problemas.
Desigualdade social → ocupação desigual do espaço → maior exposição a riscos ambientais → impactos diferentes entre as populações.
Essa lógica pode ajudar na interpretação de questões e também na redação.
Meio ambiente também é uma questão de justiça
Durante muito tempo, falar sobre meio ambiente significava principalmente discutir florestas, rios, animais e poluição.
Hoje, a discussão é mais ampla.
Também é preciso perguntar quem tem acesso a um ambiente saudável, quem está mais exposto aos riscos e quem possui recursos para se proteger.
A chuva pode ser a mesma para toda a cidade. O calor também.
Mas as condições para enfrentar esses fenômenos não são iguais.
E entender essa diferença é fundamental para compreender o racismo ambiental — um problema que está muito além da prova do ENEM e que revela como meio ambiente e desigualdade estão ligados no cotidiano brasileiro.
