A intolerância avança quando o preconceito ganha voz, poder e impunidade

Discursos políticos, campanhas de desinformação e ataques nas redes sociais ampliam a insegurança da população LGBTQIA+ em diferentes partes do mundo

Por Regina Papini Steiner — Artigo opinativo – A Chama

Durante décadas, a conquista de direitos pela população LGBTQIA+ alimentou a esperança de que o mundo avançava, ainda que lentamente, em direção a uma sociedade mais justa. O casamento igualitário foi reconhecido em diversos países, novas leis contra a discriminação foram aprovadas e identidades historicamente silenciadas ganharam espaço na cultura, na imprensa e nas instituições.

Entretanto, esse avanço passou a enfrentar uma reação cada vez mais organizada. Em diferentes regiões, discursos de ódio, propostas de retirada de direitos, perseguições políticas e ataques violentos voltaram a ameaçar pessoas cuja única reivindicação é viver com liberdade e dignidade.

Não existe um indicador único capaz de demonstrar que a intolerância cresceu da mesma maneira em todos os países. Há lugares onde direitos continuam avançando. Porém, relatórios internacionais mostram uma combinação preocupante: criminalização persistente, violência, censura, restrições a manifestações públicas e uso político do preconceito.

Quando a própria lei transforma cidadãos em criminosos

Levantamento publicado pela ILGA World em 2024 indicava que 60 Estados integrantes das Nações Unidas ainda criminalizavam legalmente as relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo. Em outros dois, a criminalização ocorria na prática. Dependendo dos critérios e das jurisdições consideradas, levantamentos posteriores apresentam números diferentes, mas todos confirmam que milhões de pessoas ainda podem ser presas ou perseguidas por sua orientação sexual.

Em alguns territórios, as punições podem chegar à prisão perpétua ou à pena de morte. Pessoas trans também são detidas por normas relacionadas a vestimentas, moralidade, ordem pública e identidade, mesmo quando as legislações não mencionam expressamente a população LGBTQIA+.

A situação demonstra que o problema vai além da intolerância individual. Quando o próprio Estado criminaliza identidades ou relações afetivas, o preconceito deixa de ser apenas uma atitude social e se transforma em política institucional.

O preconceito como instrumento de poder

Parte do crescimento da hostilidade está relacionada à utilização das pessoas LGBTQIA+ como inimigas imaginárias em disputas eleitorais e religiosas. Expressões como “ideologia de gênero” são repetidas para produzir medo, principalmente em temas relacionados à infância, à educação e à família.

É uma estratégia conhecida: cria-se uma ameaça, atribui-se a ela a responsabilidade pela suposta destruição de valores sociais e, em seguida, apresentam-se líderes autoritários como defensores da moral. A existência de cidadãos LGBTQIA+ passa a ser tratada como perigo, enquanto problemas concretos — fome, desigualdade, guerras, corrupção e falta de acesso à saúde — são empurrados para o segundo plano.

Discordâncias religiosas ou morais não podem servir como autorização para humilhar, excluir ou agredir. A liberdade de crença é um direito fundamental, mas não concede a ninguém o direito de negar a humanidade de outra pessoa.

Redes sociais ampliam o alcance do ódio

As plataformas digitais também ocupam papel central nessa crise. O conteúdo ofensivo provoca reações, compartilhamentos e audiência. Assim, publicações que ridicularizam pessoas trans, espalham informações falsas ou associam a homossexualidade a crimes podem ganhar enorme visibilidade antes de serem avaliadas ou removidas.

Em 2025, uma análise da GLAAD apontou falhas das principais plataformas na proteção de usuários LGBTQIA+. Mudanças nas políticas de moderação e respostas insuficientes ao assédio aumentam o risco de que a violência virtual transborde para a vida cotidiana.

O ataque começa com uma palavra, uma montagem ou uma mentira repetida. Depois, pode aparecer no ambiente escolar, no trabalho, dentro de casa e nas ruas. Não se trata de defender censura ou impedir o debate público, mas de reconhecer que liberdade de expressão não inclui ameaças, perseguição ou estímulo à violência.

Brasil: reconhecimento de direitos não eliminou a violência

No Brasil, decisões judiciais asseguraram conquistas importantes, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o reconhecimento da identidade de gênero e a equiparação da homotransfobia ao crime de racismo. Apesar disso, a distância entre o direito formal e a vida real continua enorme.

O Observatório de Mortes Violentas de LGBT+ registrou 257 mortes violentas no país em 2025, sendo 237 homicídios e 20 suicídios. O número representa aproximadamente uma morte a cada 34 horas. Como o levantamento depende de notícias, registros públicos e informações reunidas por organizações sociais, a ausência de estatísticas oficiais completas pode esconder uma realidade ainda mais extensa.

Outro levantamento, elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais, contabilizou 80 pessoas trans assassinadas em 2025. A maioria das vítimas era formada por travestis e mulheres trans. Os relatórios possuem metodologias próprias e, por isso, seus números não devem ser somados, mas analisados como diferentes retratos da mesma violência estrutural.

O Brasil convive, portanto, com uma contradição dolorosa: possui importantes garantias jurídicas, mas ainda permite que cidadãos LGBTQIA+ sejam expulsos de casa, abandonem a escola, encontrem barreiras no mercado de trabalho e sejam atacados por aquilo que são.

Pessoas trans tornaram-se alvos preferenciais

Embora toda a comunidade esteja sujeita à discriminação, as pessoas trans enfrentam uma ofensiva particularmente intensa. Em vários países, debates sobre documentos, participação esportiva, acesso à saúde e utilização de espaços públicos passaram a ser conduzidos como se a própria existência trans estivesse em julgamento.

Discussões legítimas sobre políticas públicas exigem evidências, responsabilidade e respeito. O que não pode ser aceito é a transformação dessas questões em licença para retirar direitos básicos de toda uma população.

Quando autoridades utilizam linguagem desumanizadora, produzem consequências para além dos discursos. A mensagem transmitida à sociedade é a de que determinadas vidas possuem menos valor e podem ser atacadas sem que isso provoque indignação.

A neutralidade diante do ódio favorece o agressor

Combater a intolerância não significa exigir que todas as pessoas pensem da mesma forma. Significa estabelecer um limite civilizatório: ninguém deve perder o emprego, ser impedido de estudar, sofrer violência ou morrer em razão de sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Governos precisam produzir dados confiáveis, investigar crimes motivados por preconceito, proteger lideranças ameaçadas e desenvolver políticas de educação e acolhimento. As empresas de tecnologia devem responder pelo alcance concedido a conteúdos que incentivam perseguições. A imprensa, por sua vez, precisa informar sem reforçar estereótipos e sem apresentar a dignidade humana como se fosse apenas mais um lado de uma disputa.

Não basta repudiar um assassinato depois que ele acontece. É necessário enfrentar o discurso que prepara o terreno para a violência.

Direitos LGBTQIA+ não são privilégios concedidos a uma minoria. São direitos humanos. Uma democracia revela sua verdadeira força justamente na maneira como protege aqueles que foram historicamente perseguidos. Quando a sociedade aceita que um grupo tenha sua cidadania diminuída, abre-se o caminho para que outros também tenham seus direitos retirados.

O mundo não precisa de mais tolerância entendida como simples ato de “suportar” a existência do outro. Precisa de respeito, igualdade perante a lei e coragem para impedir que o ódio volte a ser tratado como política legítima.

Fontes

Um comentário

  1. Precisamos de Representantes na Política… Lésbicas,Gays,Trans,Travestís para ganhar DE FATO, Visibilidade no País e reforçar as Leis de Proteção,Respeito,Reconhecimento das Populações LGBTQIA+ em todas as Esferas da Sociedade.Nós Existimos Simmmm.Pagamos Impostos,Votamos, não somos Invisíveis.

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