“Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?” — uma conversa com Abel Santos, do VAT.

Abel Santos, do VAT, fala sobre fim da escala 6x1, aplicativos e direitos dos trabalhadores.

Desempregado após acidente de moto, Abel Santos ajuda a organizar o VAT em Brasília / Brasil de Fato, foto de Camila Araujo

Entrevista para O Jornal A Chamapor Regina Papini Steiner

O debate sobre o fim da escala 6×1 ultrapassou as redes sociais e chegou ao Congresso Nacional. No centro dessa discussão estão trabalhadores que questionam não apenas quantas horas trabalham, mas quanto de suas próprias vidas é consumido pelo trabalho.

Um desses personagens é Abel Santos, coordenador do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) no Distrito Federal e atuante na organização de trabalhadores por aplicativos.

Abel conhece essa realidade também pela própria trajetória. Trabalhou no comércio, supermercado, fast-food e shopping, foi motofretista, motorista e entregador por aplicativos. Sua experiência profissional passou repetidamente pela escala 6×1 e por jornadas extensas.

Nesta entrevista ao Jornal A Chama, queremos ir além do debate sobre números e horas trabalhadas. Queremos falar sobre tempo, dignidade, família, saúde, plataformas digitais e o futuro das relações de trabalho no Brasil.


Abel, antes de falarmos do VAT, gostaria que você se apresentasse aos leitores do Jornal A Chama. Quem é Abel Santos e como sua própria história como trabalhador o levou à militância pelos direitos de outros trabalhadores?

Abel Santos – Eu nasci em 1991, dia 9 do 8 de 1991. Nasci no Hospital Regional de Taguatinga. Minha mãe morava na Samambaia, Samambaia Norte, na quadra 409. Foi onde eu tive ali o desenvolvimento da minha primeira infância. Minha primeira série eu fiz no CAIC Helena Reis, sempre estudei em escola pública. E, em 2000, eu mudei pro Recanto das Emas. Desde então, moro aqui no Recanto das Emas.  São 26 anos morando na mesma quadra. Na quadra 804 do Recanto das Emas. E minha trajetória acadêmica foi toda aqui.  Escola pública, estudei primeiro no CEF 801, que era um barraco de madeira, uma escola de madeirite que era algo provisório. Logo depois, iniciei a faculdade, onde fiz o tecnólogo em Recursos Humanos. Assim que terminei, cheguei a ir para a área, mas não gostei, principalmente por conta da baixa remuneração na época. Eu já trabalhava desde os 14 anos. Fui menor aprendiz na Star Móveis e fiquei lá até os 16. Aos 17 anos, quando estava no terceiro ano do ensino médio, comecei a trabalhar em um mercadinho próximo de casa. Trabalhava pela manhã e estudava à tarde, até finalizar o primeiro semestre do terceiro ano. Completei 18 anos em agosto e, quando saí do mercadinho, fui trabalhar no Giraffas, no fast-food. Naquela época, antes dos aplicativos, as principais portas de entrada para o mercado de trabalho eram os mercados, o fast-food e os shoppings. Foi trabalhando no Giraffas que concluí o ensino médio no período noturno. Depois fui para o shopping e, mais tarde, passei a trabalhar como entregador, ainda com carteira assinada, como motofretista. Ao mesmo tempo, fazia faculdade. Desde então, praticamente nunca tive um único trabalho. Era motoboy, motofretista, fazia bicos como garçom e como segurança noturno e ainda estudava. Minha vida sempre foi dividida entre o horário de trabalho e o horário de estudo. Ao longo desse período, fiz algumas especializações, entre elas Administração Pública, Direito Empresarial, Gestão de Pessoas, Gestão em Logística e Gestão de Empresas. Mesmo com toda essa formação, ainda sentia que faltava alguma coisa. Quando participava de entrevistas ou pensava em avançar nos estudos, fazendo mestrado ou doutorado na Universidade de Brasília, por exemplo, encontrava a exigência de uma graduação como bacharel. Foi então que iniciei o bacharelado em Administração, curso que estou concluindo aos poucos. Precisei interromper os estudos durante um período por causa de um acidente, mas hoje estou próximo de concluir. Durante minha trajetória profissional, passei por shopping, comércio de rua, farmácia e mercados. Também trabalhei vendendo cursos preparatórios para concursos. E havia algo que se repetia nesses empregos: a escala 6×1. Depois fui para os aplicativos, praticamente no início da operação da Uber em Brasília. Acompanhei de perto o crescimento dessas plataformas e as transformações que elas provocaram no mercado de trabalho. Passei a trabalhar como motorista de aplicativo e também utilizava a moto para complementar a renda. Quando o iFood chegou a Brasília e a 99 passou a operar também com entregas de comida, aproveitava as promoções oferecidas pelas plataformas: trabalhava de carro com a Uber e fazia entregas de moto pelo iFood e pela 99. Em 2020, veio a pandemia. Eu estava com um carro financiado e não consegui mais manter as parcelas. Acabei devolvendo o veículo ao banco. Foi também nesse período que começou de maneira mais intensa a minha luta pelos trabalhadores de aplicativos e, especialmente, pelos entregadores. Durante a pandemia, nós estávamos nas ruas. Não tínhamos sequer equipamentos de proteção individual adequados para nos proteger do vírus e, ao mesmo tempo, não tínhamos condições financeiras de simplesmente parar de trabalhar. Enquanto grande parte da população precisava permanecer em casa, o comércio continuava vendendo e funcionando por meio das entregas.  O comércio ainda continuaram vendendo por conta do trabalho que a gente fez, de linha de frente ali ao vírus. E eu vi a real necessidade da categoria de organização, de regulamentação, e começou essa luta, travar essa luta por direitos dignos. Hoje tenho 35 anos, tenho 3 filhos, sou casado há 8 anos, 9 anos, na verdade, e estamos na luta, lutando sempre.

O VAT – Vida Além do Trabalho carrega uma mensagem muito forte. O que é pra você essa vida além do trabalho?

Abel Santos– Na verdade, é algo que eu nunca tive, porque sempre trabalhando, sempre estudando, tentando buscar uma melhoria por conta de ser criado por uma empregada doméstica, do qual eu tenho muito orgulho, mas a gente nunca teve mais que um salário mínimo dentro de casa, que era o salário que a minha mãe recebia. Então eu nunca tive essa real vida além do trabalho. Eu conheci o Rick ( Rick Azevedo) em 2022 porque em 2021 foi o meu acidente.  Eu passei nove meses aí recuperando, e aí no final de 2022 eu tive o primeiro contato com o Rick Azevedo, que foi o fundador do movimento.  E ali eu entendi a luta dele, porque eu senti aquilo na pele. Sempre trabalhando em shopping, dentro da escala seis por um, vendedor, sempre dentro do comércio, porque você não tem outras oportunidades se você não tiver indicação, principalmente aqui em Brasília. Se você não tiver uma indicação muito boa e muito forte, você não consegue sair desse ritmo de trabalho do seis por um. Eu nunca tive essa vida, sempre tive dois, desde que eu me entendi por gente, depois dos meus 20 anos, que eu comecei a estudar, eram dois empregos e um bico, era sempre buscando ter mais fonte de renda. E isso me gerou sequelas que são irreversíveis, por trabalhar, estudar à noite até às 10, trabalhar durante o dia, dali sair e ir para uma casa de show para poder fazer segurança, portaria, e no outro dia já tinha que trabalhar novamente, ir para a faculdade novamente e à noite de novo fazendo esse trabalho de segurança. Então eram praticamente três, quatro dias onde eu dormia um intervalo de duas, três horinhas ali e já estava de novo trabalhando.

Rick Azevedo - Foto Estadão

Rick Azevedo – Foto Estadão

E quem defende a escala 6 por 1 argumenta que a sua extinção ou uma redução significa uma jornada que poderia aumentar custos, principalmente para as pequenas empresas, empresários, e até provocar desemprego. Como que o VAT responde a esse argumento?

Abel Santos – Na minha visão, e aqui faço uma análise pessoal, nós continuamos escutando as mesmas justificativas, muitas delas presentes desde os primórdios das lutas trabalhistas. É um discurso que conhecemos bem. Quando falamos do MEI, do micro, do pequeno e do médio empreendedor, precisamos entender que a responsabilidade não pode ser colocada sobre o trabalhador. Existe uma responsabilidade do próprio Estado, que muitas vezes se omite e deixa essas pessoas desamparadas. Muitos desses pequenos empreendedores foram trabalhadores que se especializaram em determinada área e hoje prestam seus serviços de maneira realmente autônoma. E eu faço essa distinção porque considero essa uma autonomia real, diferente do que acontece conosco, trabalhadores de aplicativos. Dizem que somos autônomos, mas até que ponto existe essa autonomia? Você não consegue simplesmente desligar o aplicativo. Você pensa no aplicativo mesmo quando não está trabalhando. Está em casa e, de repente, a plataforma manda uma promoção oferecendo R$ 2 a mais. Imediatamente você pensa: “Estou deixando de ganhar R$ 100, R$ 200”. Isso exerce uma pressão permanente sobre o trabalhador. O pequeno empreendedor vive outra realidade. Ele presta um serviço, estabelece o próprio preço e consegue mensurar de maneira mais concreta a rentabilidade de seu negócio. Por isso, quando se diz que uma mudança nas relações de trabalho provocará desemprego, aumentará excessivamente os custos ou quebrará os pequenos negócios, acredito que precisamos perguntar: quem está fazendo esse discurso? Na minha avaliação, muitas vezes são os grandes grupos econômicos. O micro e o pequeno empresário não possuem o mesmo espaço nos centros de decisão para participar desse debate. E o que acontece? O grande utiliza o pequeno como justificativa para defender seus próprios interesses.

Veja o Distrito Federal. Temos benefícios e isenções tributárias concedidos a grandes empresas que chegam à casa dos bilhões de reais. Enquanto isso, precisamos perguntar: onde estão os mesmos instrumentos de apoio para o pequeno empreendedor? Também precisamos discutir o papel das instituições públicas de financiamento. O BRB, por exemplo, esteve envolvido em grandes operações, patrocínios esportivos e outros investimentos. Mas onde estão, na mesma proporção, as linhas de crédito acessíveis para o pequeno? Onde estão os financiamentos baratos, a capacitação e a formação necessárias para que esse empreendedor consiga melhorar a gestão do próprio negócio. Na minha visão, falta esse amparo. E essa discussão também existe no âmbito federal. Grandes setores econômicos recebem incentivos fiscais, financiamentos e diferentes mecanismos de apoio público. O agronegócio é um exemplo frequentemente citado nesse debate. Por isso, quando alguém afirma que garantir melhores condições de trabalho ou reduzir jornadas necessariamente fará o pequeno empresário quebrar, precisamos ampliar a discussão. Não podemos colocar o pequeno empreendedor e o trabalhador em lados opostos. Precisamos perguntar por que o Estado consegue criar mecanismos de incentivo e financiamento para grandes grupos econômicos, mas tantas vezes o pequeno empresário continua enfrentando sozinho juros altos, dificuldades de crédito, falta de capacitação e todos os riscos de manter seu negócio funcionando.  Mas isso não acontece com a economia solidária, popular e solidária, isso não acontece com os MEIs, vão tentar pegar um empréstimo aí você pega R$10, paga R$40.

Isso dificilmente acontece com a microempresa.

Abel Santos – Exatamente, aí a falha não é do trabalhador, esse cara realmente vai ter a folha, ele vai ter um prejuízo, vamos dizer, por conta que ele vai ter que contratar mais pessoas para cumprir a mesma carga horária de funcionamento que ele tinha anteriormente. Esse cara tem esse prejuízo, mas a culpa não é nossa dos trabalhadores, a culpa é do Estado que não faz esse debate. É por isso que a gente é estritamente contra essa adaptação, ou compensação, como eles falam para as empresas, porque a gente sabe que essa compensação não vai chegar no pequeno, ele vai ficar no grande, no grande empresário, no grande latifundiário. Temos programas que poderiam facilitar, por exemplo, o acesso do trabalhador a um veículo para trabalhar, mas muitas vezes ele esbarra em burocracias que poderiam ser resolvidas com mais facilidade pelas instituições financeiras. Por que o trabalhador deve pagar pela falta de políticas públicas adequadas? O Brasil não conseguirá crescer e se tornar uma potência sem cuidar da base trabalhadora, de quem movimenta diariamente a economia. É preciso fortalecer quem trabalha, produz e faz a economia popular girar. Então, parece que é sempre tudo para quem já tem. E esse é o absurdo. Nós estávamos, inclusive, questionando o ministro Boulos sobre o programa Move Brasil. Até aquele momento, segundo as informações que tínhamos, apenas 1% do que havia sido disponibilizado tinha sido efetivamente utilizado para permitir que trabalhadores tivessem acesso a um veículo em condições mais acessíveis. Quando fomos ouvir as justificativas, encontramos burocracias muito pequenas: questões de documentação e exigências que poderiam ser resolvidas de maneira simples e rápida se houvesse maior disposição das instituições financeiras. Enquanto o trabalhador enfrenta toda essa burocracia para conseguir acesso ao crédito, quem é grande parece encontrar um caminho muito mais fácil para movimentar milhões.

Então eu pergunto: por que eu, como trabalhador, tenho que pagar pela incompetência ou pelos erros de um Estado que não faz um debate sério sobre como amparar quem está na base? A nossa economia e o nosso país não vão crescer, muito menos alcançar a condição de potência, se não cuidarmos da base do povo trabalhador, de quem realmente faz a economia girar. É a economia popular e solidária que movimenta a vida cotidiana. Enquanto isso, os grandes latifundiários produzem milho, soja, cana-de-açúcar e outras commodities voltadas, em grande medida, para o mercado externo.

Quem faz chegar o produto na nossa casa é o médio, o pequeno e o micro. 

Abel Santos – O grande empresário está envolvido diretamente na composição do PIB. E é justamente aí que existe uma contradição. Quando falamos da regulamentação dos trabalhadores de aplicativos, por exemplo, acredito que esse debate ainda não foi feito de maneira suficientemente séria e competente. Estamos falando de um setor que movimenta bilhões de reais por ano e contribui para a atividade econômica do país. Para mim, um dos grandes problemas é medir se um país está bem apenas pela produtividade e pelo crescimento do PIB, sem considerar, na mesma proporção, a qualidade de vida das pessoas. Isso é um absurdo. O trabalhador de aplicativo pode produzir mais, trabalhar mais horas e movimentar mais dinheiro, enquanto suas condições de vida continuam precárias. É o que eu chamo de “escravidão digital”. O dinheiro circula, a atividade econômica aumenta e isso aparece nos indicadores. Mas precisamos perguntar: em que condições esse resultado está sendo produzido e quem está pagando por ele? Por que o trabalhador precisa arcar com as consequências das decisões do Estado e dos grandes grupos econômicos? Essa é a questão. E é muito difícil fazer uma análise diferente quando, para sobreviver, muitas vezes o trabalhador sente que não tem escolha, apenas a opção que parece ser a menos pior.

Abel, os algoritmos das plataformas participam de decisões importantes, como a distribuição de corridas e entregas e os valores oferecidos aos trabalhadores. Como você enxerga esse controle algorítmico e até que ponto ele interfere na autonomia e na renda de motoristas e entregadores?

Abel Santos – O algoritmo, na minha visão, é uma ferramenta com uma capacidade extraordinária de cálculo, análise e previsão de cenários. Se pensarmos em todo esse potencial, seria magnífico utilizá-lo, por exemplo, para ajudar a erradicar doenças ou melhorar o atendimento à saúde. Imagine utilizar essa tecnologia para identificar onde há maior necessidade de UBS, UPAs, prontos-socorros ou hospitais. O algoritmo consegue trabalhar não apenas com cálculos matemáticos, mas também com georreferenciamento, probabilidades e projeções sobre como determinada demanda pode crescer ou diminuir. O problema não está necessariamente na tecnologia, mas em como e para quem ela é utilizada. Quando grandes empresas utilizam esses sistemas dentro de uma lógica voltada prioritariamente para o lucro, essa enorme capacidade tecnológica deixa de estar a serviço da população e passa a ser empregada para aumentar produtividade, reduzir custos e extrair cada vez mais do trabalho. No caso das plataformas, na minha visão, o algoritmo acaba sendo utilizado para maximizar a exploração do trabalhador. É uma discussão que podemos relacionar ao conceito de mais-valia apresentado por Marx. E não precisamos tornar isso excessivamente complicado: a tecnologia poderia ser uma ferramenta extraordinária para melhorar a vida das pessoas. A questão é saber quem controla essa tecnologia, com qual finalidade e quem realmente se beneficia dela.: São dez anos. Não estamos falando de dez meses ou de dois anos. São dez anos de atuação das plataformas sem, na minha avaliação, um enquadramento fiscal adequado.

E nem estou entrando ainda na discussão sobre o reconhecimento do trabalhador e a garantia de direitos. Estou falando do enquadramento da própria atividade dessas empresas. Elas atuam diretamente no transporte, mas são tratadas como empresas de tecnologia. Por quê? Porque esse enquadramento é mais vantajoso do ponto de vista tributário. Na minha visão, o Estado não teve competência nem coragem para fazer o básico: discutir seriamente qual deveria ser o enquadramento dessas empresas diante da atividade que efetivamente exercem. Então, como esperar que esse mesmo Estado faça um debate realmente sério para garantir direitos a quem está na base, ao pobre, ao preto, a quem vive na favela? Nós vivemos em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural e pela negação de muitas dessas desigualdades. Acreditar que esse sistema, espontaneamente, vai se voltar para atender aos interesses de quem está na base é, para mim, uma ilusão.

E o algoritmo funciona muito bem dentro desse sistema. Muitas pessoas dizem que o sistema não funciona. Eu penso diferente: é preciso perguntar para quem ele foi criado e a quem ele serve. Na minha visão, ele funciona justamente para manter os grandes, preservar estruturas de poder e fazer com que quem está na base continue enfrentando dificuldades enquanto sustenta economicamente quem está no topo. Para mim, o algoritmo, quando utilizado dessa maneira, reproduz essa mesma lógica de poder e desigualdade.

Olhando para o futuro, como você imagina o VAT daqui a 10 ou 20 anos? Que conquistas você espera que o movimento tenha ajudado a construir e que mudanças gostaria de ver concretizadas na vida dos trabalhadores brasileiros?

Abel Santos : Essa resposta pode ser um pouco polêmica, mas, se não fosse polêmica, não seria eu. Faço parte do VAT e reconheço a importância do movimento e dessa ferramenta de mobilização. Mas também acredito que precisamos olhar para o futuro e entender que as formas de organização dos trabalhadores estão mudando. Eu não sou contra os sindicatos. Pelo contrário: considero o sindicato uma ferramenta extremamente importante. Se ele cumprisse plenamente aquilo que está em sua própria concepção, organizar, representar e defender os trabalhadores, funcionaria muito bem. O problema é que, muitas vezes, isso ficou na teoria. Recentemente, participei de um podcast em que me perguntaram qual é a função do sindicato hoje. E respondi: “Cara, eu já não sei mais qual é a função do sindicato”. Porque a própria relação de trabalho mudou. Nós não temos mais apenas o tradicional chão de fábrica, onde os trabalhadores permaneciam reunidos durante todo o dia e onde era possível organizar uma categoria dentro daquele espaço. Como você organiza, por exemplo, um trabalhador de aplicativo? Você precisa encontrá-lo de ponto em ponto e talvez tenha apenas cinco minutos para conversar, porque a qualquer momento ele recebe uma corrida ou uma entrega e precisa sair. Esse é um dos grandes desafios: organizar uma força de trabalho que não para e que não está mais concentrada em um único lugar. Para esses trabalhadores, toda a extensão do asfalto se transformou no chão da fábrica. Quanto ao VAT, acredito que o movimento terá uma grande conquista: o fim da escala 6×1. Infelizmente, talvez isso não aconteça tão rapidamente quanto esperávamos. Hoje existem obstáculos políticos no Congresso e muita pressão em torno dessa votação. Espero que ela avance, mas, olhando de maneira realista para o cenário, acredito que essa conquista possa acabar ficando para depois das eleições. O mais importante é que houve um despertar da classe trabalhadora. As pessoas passaram a cobrar essa mudança, e essa pressão não vai simplesmente desaparecer. Agora, depois de uma eventual conquista do fim da escala 6×1, tenho minhas dúvidas sobre o futuro do VAT. Não sei se o movimento conseguirá manter a mesma capacidade de mobilização para construir uma nova grande pauta trabalhista. Talvez esse seja justamente o próximo desafio: descobrir como transformar uma grande mobilização em uma força permanente de organização e conquista para os trabalhadores. Porque, assim, para que você entenda o meu pessimismo, nós tivemos uma reforma previdenciária que tratorou o povo brasileiro, o povo trabalhador. Aí você tem uma reforma trabalhista que tratorou os direitos do povo trabalhador brasileiro. E aí a gente vem num período de seis anos de ser massacrado constantemente, porque sai de Temer para Bolsonaro. E aí, quando a gente vê um plano de governo, que foi a proposta de Lula para 2022, vem a esperança, porque eu quase apanhei na rua fazendo campanha por Lula em 2022. Sim. Porque eu acreditei naquilo que estava ali escrito. Mas, nos quatro anos, a gente não teve enfrentamento algum, sabe? Aí o povo vem: “Ah, mas é porque ele deixou um rombo”. Eu falei: “Tá bom, o rombo do Bolsonaro foi financeiro, foi fiscal”.

Como explicar isso quando estamos falando de alguém que veio do próprio movimento sindical?

Abel Santos – É uma contradição. E o que fica para nós, trabalhadores? Se uma pessoa que veio do sindicalismo, de uma época em que os sindicatos realmente tinham força, conhece essa estrutura, sabe como ela funciona e como mobilizar os trabalhadores, mas, ao chegar ao poder, não promove os enfrentamentos que esperávamos, o que resta para quem continua lá na base? Isso acaba gerando um descrédito dentro da própria classe trabalhadora. Na minha visão, estamos vivendo um projeto neoliberal conduzido pela direita e pela extrema direita, enquanto a esquerda tem sido permissiva diante desse processo. Essa é a crítica que faço. E fica uma pergunta que considero fundamental: onde está o trabalho de base da esquerda dentro das periferias? Ontem aconteceu uma situação que mostra bem esse antagonismo. Fomos visitar uma possível eleitora , eu sou candidato a deputado distrital, uma amiga da minha mãe. Em determinado momento, ela perguntou para minha mãe, que se chama Eva: “Eva, em quem você vai votar para presidente?”. Minha mãe respondeu: “Só tem um, vou votar no Lula”. Depois ela perguntou em quem minha mãe votaria para o Governo do Distrito Federal. Minha mãe respondeu: “Leandro Grass, que está pelo PT aqui no Distrito Federal”. E ela imediatamente perguntou: “Quem é esse?”. Por curiosidade, eu perguntei a ela: “A senhora vai votar no Lula?”. E ela respondeu: “Não tem como eu dar meu voto a não ser para o Lula”. Então perguntei: “E para o governo, a senhora vai votar em quem?”. Ela respondeu: “Na Celina Leão”. Naquele momento, eu fiquei realmente surpreso. Foi aquele tipo de resposta que faz você parar e pensar: como uma mesma pessoa pode fazer escolhas políticas que, na nossa leitura, representam campos tão diferentes? Para mim, esse episódio ajuda a mostrar a complexidade do voto e também a distância que existe entre o debate político organizado e aquilo que efetivamente chega às pessoas.

É uma situação que considero absurda, mas não vejo isso como culpa dela. Para mim, o problema é que a esquerda deixou de cumprir um papel fundamental: estar presente nos territórios periféricos, dialogando e contribuindo para a formação política da sociedade. Então, ela diz: “Vou votar na Celina”, provavelmente porque alguém apresentou esse nome a ela, e, ao mesmo tempo, afirma que vai votar no Lula. E alguém ainda disse a ela que Celina não seria contra Lula, quando, na minha visão, ela está politicamente ligada ao campo bolsonarista. Veja como está a nossa sociedade hoje. Existem pessoas que dizem que vão votar em Leandro Grass, e em mim, mas, para presidente, pretendem votar em Flávio Bolsonaro. Essas contradições mostram, na minha avaliação, o quanto falta diálogo político na base e, principalmente, presença dentro das periferias.

Imagine um trabalhador ou uma trabalhadora que esteja lendo essa entrevista durante seu único dia de folga, depois de trabalhar seis dias consecutivos.  O que você gostaria de dizer diretamente para essa pessoa?

Abel Santos – Infelizmente, minha sensação é de que estamos perdidos e sem referências para nos organizar. Mas acredito que existe uma escolha fundamental: precisamos acordar e nos reconhecer como trabalhadores. Eu posso até compreender que o outro não me reconheça dessa forma; o que não consigo entender é quando o próprio trabalhador não se reconhece. Também precisamos abandonar algumas ilusões e exercer um voto consciente: pesquisar, conhecer quem são os candidatos, o que já fizeram, o que defendem e quais são seus valores políticos. A política precisa ser entendida como gestão pública, que exige competência. Não podemos escolher alguém apenas por sua religião ou por discursos sobre família e costumes. Estamos vivendo transformações profundas e precisamos evoluir também na nossa maneira de pensar. Na minha visão, o avanço de uma lógica econômica voltada prioritariamente para o lucro está cobrando um preço muito alto da sociedade, inclusive sobre o meio ambiente, a mobilidade e as condições de trabalho.

E quem paga essa conta, principalmente, é a classe trabalhadora, especialmente quem vive nas periferias e tem menos acesso a informação e conhecimento de qualidade. Por isso eu pergunto: até quando o trabalhador vai aceitar o osso enquanto poucos comem o filé e ainda tentam convencê-lo de que o osso é a melhor parte? Existe também um enorme descrédito na política. Nas ruas, quando tentamos conversar sobre propostas e entender os problemas das pessoas, ouvimos: “Não quero falar de política”, “estou cansado”, “nenhum presta”. Mas, se não conhecermos quem nos representa e não cobrarmos de quem exerce o poder, dificilmente alguma coisa vai mudar.

Precisamos voltar a nos organizar. A classe trabalhadora precisa despertar, e a esquerda precisa compreender que não pode permanecer passiva enquanto perde espaço dentro das periferias.

Abel Santos

Arquivo pessoal

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *