
Cartunista Barão -Imagem ilustrativa representa as sanções norte-americanas, a vigilância e os riscos de criminalização dos movimentos políticos e pró-Palestina.
Medida do governo Trump atinge organizações do Reino Unido e da Itália, movimento palestino e duas lideranças, entre elas uma ativista radicada no Brasil; uso político da legislação antiterrorismo desperta preocupações sobre liberdade de expressão e criminalização da oposição
Por Regina Papini Steiner – Jornal A Chama
O governo dos Estados Unidos anunciou, em 26 de agosto, sanções contra três organizações classificadas pela administração de Donald Trump como integrantes de redes terroristas de “extrema esquerda”. A decisão atinge a organização britânica Palestine Action, o coletivo tecnológico italiano Autistici/Inventati e o movimento palestino transnacional Masar Badil.
Também foram incluídos na lista de sanções dois dirigentes do Masar Badil: Zaid Abdulnasser, baseado na Alemanha, e Rawa Alsagheer, palestina radicada no Brasil. A medida foi adotada pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, o OFAC, vinculado ao Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
A classificação empregada pelo governo norte-americano é grave e produz consequências que ultrapassam as fronteiras do país. Os bens e interesses das pessoas e organizações sancionadas que estejam nos Estados Unidos, ou sob o controle de cidadãos e empresas norte-americanas, ficam bloqueados. Transações financeiras, prestação de serviços, contribuições e outras formas de relacionamento econômico também podem ser proibidas.
Instituições financeiras estrangeiras que realizem determinadas operações com os sancionados ainda podem ficar expostas a sanções secundárias. Na prática, o alcance mundial do sistema financeiro dos Estados Unidos aumenta consideravelmente o poder dessa decisão.
Quem foi atingido
O Palestine Action é um grupo britânico de ação direta criado em 2020. Suas mobilizações concentram-se principalmente em instalações de empresas ligadas à indústria militar israelense, especialmente a Elbit Systems.
O governo norte-americano acusa a organização de invadir instalações militares e empresariais, provocar prejuízos materiais e ferir agentes policiais. O grupo sustenta que suas ações buscam interromper o funcionamento de empresas envolvidas no fornecimento de armamentos utilizados contra a população palestina.
Em julho de 2025, o governo britânico classificou o Palestine Action como organização terrorista. A decisão tornou crime apoiar publicamente o grupo ou participar de suas atividades. A proibição, entretanto, é objeto de uma disputa judicial que deverá chegar à Suprema Corte britânica em novembro de 2026.
A cofundadora do Palestine Action, Huda Ammori, declarou que as atividades da organização sempre tiveram como objetivo interromper a indústria militar israelense e salvar vidas palestinas. Para ela, a adesão do governo Trump à classificação britânica representa um alerta para quem se preocupa com liberdade de expressão e direitos civis.
O Autistici/Inventati, por sua vez, é uma organização italiana que oferece serviços digitais, como hospedagem de sites, contas de e-mail criptografadas, ferramentas de comunicação e a plataforma Noblogs. O coletivo se apresenta como antifascista, anticapitalista e antimilitarista.
O governo norte-americano afirma que essa infraestrutura tecnológica foi disponibilizada a grupos considerados extremistas e a organizações já sancionadas. Com base nisso, o Autistici/Inventati foi classificado como apoiador material de atos de terrorismo.
Esse ponto merece atenção especial. A sanção não atinge apenas quem teria praticado diretamente um ato violento, mas também uma organização responsável por fornecer ferramentas de comunicação e infraestrutura digital. A ampliação desse entendimento pode criar precedentes para responsabilizar provedores de tecnologia, plataformas e projetos de privacidade pelas atividades de seus usuários.
O terceiro alvo é o Masar Badil, também conhecido como Movimento do Caminho Revolucionário Alternativo Palestino. O Tesouro dos Estados Unidos afirma que o movimento funciona como uma frente da rede Samidoun, já sancionada por supostas ligações com a Frente Popular para a Libertação da Palestina.
A lista publicada pelo OFAC identifica Rawa Alsagheer como cidadã palestina baseada no Brasil. Ela é apontada como integrante da direção do Masar Badil e coordenadora da rede Samidoun no país. A presença de uma ativista radicada em território brasileiro entre os sancionados amplia a relevância do caso para o Brasil. Lista oficial do OFAC
Uma legislação criada depois do 11 de Setembro
As sanções foram aplicadas com base na Ordem Executiva 13.224, editada em setembro de 2001, poucos dias depois dos atentados de 11 de Setembro. O instrumento foi criado para bloquear recursos e redes de financiamento ligadas ao terrorismo internacional.
Mais de duas décadas depois, essa mesma estrutura está sendo aplicada a coletivos políticos, organizações de ação direta, movimentos de solidariedade à Palestina e prestadores de serviços digitais.
Atos violentos, ameaças contra pessoas, invasões e destruição de patrimônio devem ser investigados individualmente, com provas, direito de defesa e julgamento. O problema aparece quando a legislação antiterrorismo, devido ao seu enorme poder punitivo, é utilizada para enquadrar organizações políticas inteiras e alcançar atividades que também envolvem protesto, comunicação, militância e desobediência civil.
O próprio governo norte-americano afirma que não pune discursos políticos ou atividades protegidas constitucionalmente. No entanto, o uso repetido de expressões amplas como “extrema esquerda”, “Antifa”, “facilitadores” e “apoiadores” deixa aberta uma perigosa margem de interpretação.
Combate à violência ou perseguição política?
O anúncio faz parte de uma ofensiva mais ampla da administração Trump contra o que passou a chamar de “terrorismo transnacional de extrema esquerda”. Em julho, o secretário de Estado Marco Rubio reuniu representantes de mais de 60 países para defender uma mudança nas prioridades internacionais de combate ao terrorismo.
A iniciativa já despertava preocupações entre parlamentares democratas e organizações de direitos civis, que enxergam o risco de politização das políticas antiterrorismo e desvio de recursos destinados a outras ameaças extremistas. Segundo a Reuters, críticos temem que o governo utilize o combate ao terrorismo para atingir grupos considerados ideologicamente adversários.
É indispensável distinguir violência política de oposição política. Nenhuma causa está acima da lei, mas nenhuma legislação pode estar acima das garantias democráticas. Quando governos passam a definir como terroristas grupos identificados principalmente por sua posição ideológica, a fronteira entre segurança e perseguição torna-se perigosamente estreita.
Também chama atenção a tentativa de reunir organizações muito diferentes sob uma mesma categoria. Um coletivo italiano de infraestrutura digital, um grupo britânico de ação direta e um movimento político palestino possuem histórias, objetivos e métodos distintos. Colocá-los no mesmo pacote de “terrorismo de extrema esquerda” favorece uma narrativa política, mas não necessariamente uma análise individualizada e transparente das condutas atribuídas a cada um.
O silêncio diante de outras formas de extremismo
A credibilidade de qualquer política de combate ao terrorismo depende de critérios objetivos e aplicação coerente. Se atos violentos devem ser enfrentados, isso precisa valer independentemente da posição ideológica de seus responsáveis.
A ênfase quase exclusiva na chamada “extrema esquerda” provoca questionamentos sobre a resposta do governo norte-americano a organizações supremacistas brancas, neonazistas e grupos de extrema direita com atuação transnacional.
Combater apenas o extremismo associado aos adversários políticos, enquanto outras formas de violência recebem tratamento diferente, não fortalece a democracia. Ao contrário, transforma os instrumentos de segurança do Estado em armas de disputa ideológica.
Um precedente perigoso para o mundo
A decisão norte-americana deve ser observada com atenção pelo Brasil e por outras democracias. O poder financeiro dos Estados Unidos permite que suas sanções provoquem bloqueios e restrições mesmo fora de seu território. Bancos, empresas de tecnologia e plataformas internacionais frequentemente preferem encerrar relações com qualquer pessoa ou organização sancionada, ainda que não exista condenação judicial no país onde ela atua.
O resultado pode ser uma espécie de punição global determinada por uma decisão administrativa unilateral.
É possível discordar dos métodos adotados por determinados movimentos e exigir responsabilização por eventuais crimes sem aceitar que militância política, antifascismo ou solidariedade ao povo palestino sejam automaticamente tratados como terrorismo.
A defesa dos direitos humanos exige coerência. Ela inclui o combate à violência, mas também o direito de manifestação, o devido processo legal, a liberdade de expressão e a proteção contra perseguições políticas.
O verdadeiro absurdo não está em investigar atos concretos ou responsabilizar quem comprovadamente comete crimes. Está em permitir que conceitos vagos e interesses geopolíticos ampliem a palavra “terrorismo” até que ela possa alcançar qualquer voz considerada inconveniente. Quando isso acontece, não é apenas um grupo político que está sob ameaça: é o próprio espaço democrático.
Fontes da matéria
- Departamento de Estado dos Estados Unidos — comunicado oficial
- Departamento do Tesouro dos EUA — anúncio e justificativas das sanções
- OFAC — lista oficial das organizações e pessoas sancionadas
- Reuters — medida contra o Palestine Action e reações
- The Guardian — consequências das sanções e contestação judicial
- Ordem Executiva 13.224 — legislação antiterrorismo utilizada
