Como uma investigação sigilosa virou manchete nacional e por que ninguém pergunta quem vazou
Em março deste ano, a Polícia Federal já sabia o nome da fonte de Luís Pablo. Cinco meses depois, em agosto, uma nova operação virou notícia em todos os portais do país. Todo mundo tratou como se fosse uma revelação inédita. Ninguém contou que a história começou em março, sob sigilo, e que a imprensa só “descobriu” o nome porque alguém vazou trechos de uma decisão do Supremo Tribunal Federal.
Isso não é teoria da conspiração. Está nos autos ,ou melhor, no que conseguimos saber deles, já que o processo tramita em sigilo absoluto.

Quem é quem nessa história
Luís Pablo é jornalista e blogueiro no Maranhão. Desde 2016, acumula processos judiciais: foi condenado a pagar indenização ao ministro Flávio Dino por danos morais, e em 2017 foi preso na Operação Turing, suspeito de extorquir dinheiro de investigados para não publicar informações sigilosas. Ele nega as acusações e o processo ainda não foi julgado.
Em novembro de 2025, Pablo publicou uma série de reportagens sobre o suposto uso irregular de um veículo oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão por familiares de Dino. As publicações incluíam placas, dados de equipe de segurança e trajetos.
Raimundo Soares Cutrim é ex-secretário extraordinário de Assuntos Legislativos do governo do Maranhão, ligado ao governador Carlos Brandão (MDB). Desde julho de 2026, cumpre prisão domiciliar em outro inquérito sigiloso, o chamado caso “Tech Office”, que apura obstrução à Justiça e coação no curso do processo.
Diogo Diniz Lima é ex-secretário municipal de Urbanismo e Habitação de São Luís e atual superintendente do SESI-MA. Também é investigado.
Danilo Cutrim Bezerra é professor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e, segundo a PF, recebeu uma transferência bancária de R$ 100 mil de Diogo Lima, supostamente para quitar parte da compra de um imóvel de Luís Pablo.
Março de 2026: a PF já sabe
A investigação teve origem em uma solicitação da Polícia Federal em dezembro de 2025, após a segurança de Flávio Dino alertar sobre monitoramento ilegal de seus deslocamentos em São Luís. Inicialmente sorteada para o ministro Cristiano Zanin, a presidência do STF redistribuiu os autos para Alexandre de Moraes em fevereiro de 2026, a pedido do próprio Zanin. Leia mais no O Globo
O STF emitiu nota oficial esclarecendo que o caso não decorre do inquérito das fake news (Inq. 4781), embora Moraes tenha mencionado no despacho que o “modus operandi” de Pablo seria semelhante ao da organização criminosa investigada naquele inquérito. A Gazeta do Povo mostrou a contradição: a nota do STF negava a correlação, mas a decisão de Moraes afirmava a prevenção ao Inquérito 4781.
No dia 10 de março, Moraes autorizou busca e apreensão na casa de Luís Pablo, em São Luís. A PF levou dois celulares, um HD e um MacBook. A investigação apura indícios de crime de perseguição (art. 147-A do CP) contra o ministro Flávio Dino. Detalhes no JOTA.
Na análise forense dos aparelhos, a PF encontrou, no WhatsApp Web do jornalista, conversas com um contato salvo como “Secretário Raimundo Cutrim”. Essa informação entrou no inquérito e ficou sob sigilo processual. Ninguém fora da investigação sabia.
Três dias depois, em 13 de março, Pablo prestou depoimento e ficou em silêncio, alegando sigilo da fonte. Em abril, o STF autorizou a devolução dos equipamentos.
Até aqui, tudo sigiloso. Tudo quieto.
Julho de 2026: Cutrim já está preso, e o caso é mais grave
Em julho, Flávio Dino decretou a prisão domiciliar de Raimundo Cutrim. A medida está ligada ao caso Tech Office, o assassinato do empresário João Bosco Sobrinho, de 46 anos, morto a tiros em 2022. Um áudio vinculou a cúpula política do Maranhão ao crime e foi usado pela PF para pedir a prisão de Cutrim. Veja no SBT News. Nenhuma reportagem nacional conectou publicamente os dois casos na época.
Agosto de 2026: a “revelação”
No dia 11 de agosto, a PF cumpriu nova busca e apreensão, desta vez na casa de Raimundo Cutrim e de Diogo Diniz Lima. A operação foi autorizada por Moraes.
No mesmo dia, a Gazeta do Povo publicou que teve “acesso a trechos da decisão” de Moraes. A CNN e outros veículos reproduziram a mesma informação, todos se baseando nos mesmos trechos vazados da decisão judicial, não em apuração independente. Segundo esses trechos, Cutrim teria sido identificado como a fonte das reportagens de Pablo.
A pergunta que ninguém fez: se o inquérito é sigiloso, como a imprensa teve acesso a trechos da decisão?
No dia 12, Luís Pablo publicou um comunicado em seu blog. Disse que houve “identificação e violação do sigilo de uma fonte jornalística”. As principais entidades de imprensa do país saíram em defesa de Pablo, condenando a “quebra de sigilo de fonte” por parte de Moraes. Veja no O Globo.
O detalhe: nenhuma dessas entidades teve acesso à íntegra dos autos. A defesa de Cutrim mesmo confirmou, em nota, que não tinha acesso à decisão integral. Ou seja, todo mundo reagiu a uma versão vazada da imprensa, não a um documento que pudessem ler.
Os R$ 100 mil
A PF identificou uma transferência bancária de R$ 100 mil feita por Diogo Diniz Lima para a conta de Danilo Cutrim Bezerra. Segundo a investigação, o dinheiro serviria para quitar parte da compra de um imóvel de Luís Pablo. Pablo afirmou que se trata de um empréstimo.
De onde veio o dinheiro dos empréstimos? A origem dos recursos não foi esclarecida publicamente. E sem acesso aos autos, não é possível afirmar irregularidade. Mas é possível perguntar: em um caso que já é opaco, por que há tantas camadas de opacidade?
A pergunta que o A Chama faz
Se o sigilo de fonte é sagrado, por que o sigilo de justiça foi violado para construir uma narrativa?
Se a PF já sabia o nome da fonte em março, por que a imprensa só “descobriu” em agosto?
Se nenhuma entidade de imprensa leu os autos, como elas têm tanta certeza do que aconteceu dentro deles?
E, o mais importante: quem vazou trechos de uma decisão do STF para a imprensa, e com que interesse?
