Da derrota do nazismo ao medo do comunismo: quando Washington e Roma passaram a falar a mesma língua.

Foto Francisco Ortiz – Vaticano
Por Regina Papini Steiner — A Chama
A imagem da bandeira soviética hasteada sobre o Reichstag, em Berlim, em maio de 1945, simbolizou o fim do Terceiro Reich. Para milhões de pessoas, significava o encerramento de uma das páginas mais sombrias da história da humanidade. Para outros, porém, aquele momento marcava apenas o início de um novo conflito, desta vez menos visível, mas igualmente decisivo para o século XX: a Guerra Fria.
Com a derrota da Alemanha nazista, o mundo deixou de estar dividido entre democracias e regimes fascistas. Em poucos anos, uma nova polarização reorganizou a política internacional. De um lado, os Estados Unidos defendiam a economia de mercado e a democracia liberal. Do outro, a União Soviética expandia sua influência sobre o Leste Europeu, promovendo governos alinhados ao socialismo de inspiração marxista-leninista.
Nesse cenário, o Vaticano passou a desempenhar um papel diplomático cada vez mais relevante. A Igreja Católica, que durante décadas havia enfrentado desafios impostos pelos regimes fascistas, voltou sua atenção para aquilo que considerava uma ameaça ainda mais profunda: a expansão do comunismo ateu.
O comunismo como desafio existencial
Embora o nazismo tenha sido derrotado militarmente em 1945, o temor ao comunismo não era novidade para a Santa Sé — como já mencionado na primeira reportagem desta série, essa desconfiança remontava à Revolução Russa de 1917 e às perseguições sofridas pela Igreja sob o governo bolchevique.
O historiador David I. Kertzer observa que essa experiência marcou profundamente a diplomacia vaticana durante todo o século XX. Segundo ele, muitos dirigentes da Igreja interpretavam o comunismo não apenas como uma doutrina econômica ou política, mas como um projeto que buscava substituir a religião por um Estado ideológico.
Essa percepção explica por que, após a derrota de Hitler, a Santa Sé passou a concentrar grande parte de seus esforços diplomáticos na contenção da influência soviética.
A Doutrina Truman e um novo aliado
Em 1947, o presidente norte-americano Harry Truman anunciou uma política que redefiniria a atuação internacional dos Estados Unidos: a chamada Doutrina Truman.
Seu objetivo era impedir a expansão do comunismo em qualquer região considerada estratégica para os interesses ocidentais. Pouco depois, o Plano Marshall financiaria a reconstrução econômica da Europa Ocidental, fortalecendo governos democráticos e reduzindo o espaço para partidos comunistas.
Embora não existisse uma aliança formal entre Washington e o Vaticano, seus interesses passaram a convergir em diversos aspectos.
Segundo o historiador John Lewis Gaddis, um dos maiores especialistas na Guerra Fria, o enfrentamento entre Estados Unidos e União Soviética não ocorreu apenas nos campos militar e econômico. Tratava-se também de uma disputa por valores, cultura, influência política e legitimidade internacional.
Nesse contexto, a Igreja Católica tornou-se um ator de enorme importância simbólica, especialmente em países de tradição cristã.
Pio XII e a diplomacia anticomunista
O papa Pio XII permaneceu no comando da Igreja entre 1939 e 1958, atravessando tanto a Segunda Guerra Mundial quanto os primeiros anos da Guerra Fria.
Se durante o conflito mundial sua postura ainda desperta debates, no pós-guerra sua posição em relação ao comunismo tornou-se explícita.
Diversos pronunciamentos papais denunciaram as perseguições religiosas ocorridas em países sob influência soviética. Bispos, sacerdotes e fiéis enfrentavam prisões, censura e restrições ao exercício da fé em várias regiões da Europa Oriental.
O historiador Michael Phayer destaca que a Santa Sé passou a utilizar sua estrutura diplomática para denunciar violações à liberdade religiosa, reforçando a ideia de que o comunismo representava uma ameaça não apenas política, mas também espiritual.
Essa atuação consolidou uma aproximação gradual entre Vaticano e Estados Unidos, ainda que cada instituição mantivesse objetivos próprios.
A “Cortina de Ferro” também era religiosa
Quando Winston Churchill utilizou, em 1946, a expressão “Cortina de Ferro”, referia-se à divisão política da Europa. Mas, para muitos historiadores, essa fronteira também possuía uma dimensão religiosa.
Em países como Polônia, Hungria, Tchecoslováquia e Romênia, a Igreja Católica passou a conviver com governos que restringiam sua atuação institucional.
Segundo Timothy Snyder, compreender o Leste Europeu exige abandonar a ideia de que a Guerra Fria foi apenas um embate militar entre superpotências. Tratava-se igualmente de uma disputa sobre identidade nacional, memória histórica, religião e organização social.
Em várias dessas nações, a Igreja tornou-se um dos poucos espaços capazes de preservar certa autonomia diante do Estado.
Washington e Roma: convergência, não submissão
É comum encontrar interpretações segundo as quais o Vaticano teria se tornado um instrumento da política externa norte-americana. A documentação histórica, entretanto, revela um quadro mais complexo.
Para Andrea Riccardi, historiador da Igreja e fundador da Comunidade de Santo Egídio, a Santa Sé sempre procurou preservar sua autonomia diplomática. Em muitos momentos, coincidia com os interesses dos Estados Unidos; em outros, adotava posições independentes.
Essa distinção é importante porque impede leituras conspiratórias.
O Vaticano defendia princípios religiosos e buscava proteger comunidades católicas ao redor do mundo. Os Estados Unidos, por sua vez, atuavam segundo objetivos estratégicos ligados à contenção soviética. Em diversas ocasiões, essas agendas convergiram, mas não eram idênticas.
A eleição de João XXIII e novos caminhos
Em 1958, com a morte de Pio XII, foi eleito o papa João XXIII.
Embora mantivesse críticas ao comunismo, João XXIII inaugurou um período de maior abertura diplomática, buscando ampliar canais de diálogo com governos do bloco socialista.
Essa política, posteriormente aprofundada por Paulo VI, ficou conhecida como Ostpolitik Vaticana.
O objetivo era estabelecer negociações que permitissem maior liberdade para bispos, seminários e comunidades católicas situadas atrás da Cortina de Ferro.
Segundo Andrea Riccardi, essa mudança não representava uma aceitação do comunismo, mas uma estratégia pragmática para proteger milhões de fiéis vivendo sob regimes socialistas.
João Paulo II e o capítulo decisivo
A convergência entre Vaticano e Estados Unidos alcançaria seu momento mais conhecido a partir de 1978, com a eleição do papa João Paulo II.
Nascido na Polônia e profundamente marcado pela ocupação nazista e pelo domínio soviético, Karol Wojtyła tornou-se um dos principais símbolos da resistência ao comunismo no Leste Europeu.
Os historiadores Timothy Garton Ash e John Lewis Gaddis sustentam que sua influência sobre o movimento Solidariedade, liderado por Lech Wałęsa, contribuiu para fortalecer uma oposição pacífica ao regime comunista polonês.
Ao mesmo tempo, o presidente norte-americano Ronald Reagan ampliava a pressão econômica e estratégica sobre a União Soviética.
Durante décadas, especulações sugeriram uma coordenação secreta entre Vaticano e Casa Branca. Entretanto, os estudos mais recentes indicam que, embora houvesse diálogo e objetivos convergentes, a queda do bloco soviético resultou de uma combinação muito mais ampla de fatores: crise econômica, corrida armamentista, mobilização popular, reformas internas conduzidas por Mikhail Gorbachev e desgaste político acumulado ao longo de décadas.
Muito além de uma guerra entre ideologias
A Guerra Fria costuma ser apresentada como um confronto entre capitalismo e socialismo. No entanto, essa definição é insuficiente.
Para Eric Hobsbawm, tratou-se de uma disputa global que envolveu economia, cultura, propaganda, religião, tecnologia e influência política.
Nesse cenário, o Vaticano não atuou como potência militar, mas como um dos mais influentes atores diplomáticos do século XX. Sua capacidade de dialogar com governos de diferentes orientações políticas transformou a Santa Sé em uma peça importante da geopolítica internacional.
Ainda hoje, pesquisadores divergem sobre o alcance dessa influência. O consenso, porém, é que compreender o período exige analisar documentos, correspondências diplomáticas e decisões políticas, evitando interpretações reducionistas.
Na terceira e última reportagem desta série, a abertura dos Arquivos Apostólicos do Vaticano permite revisitar documentos inéditos, confrontar novas evidências e compreender por que, mais de oitenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, o debate sobre o papel da Igreja Católica continua mobilizando historiadores em todo o mundo.
