Quando a política fala mais alto que a própria realidade: a contradição de quem condena aquilo que lhe estende a mão.

foto de Raúl Sotomayor

Por Regina Papini Steiner | A Chama

Existe uma contradição silenciosa que atravessa o Brasil contemporâneo. Ela não aparece apenas nas pesquisas eleitorais, nos debates televisivos ou nas redes sociais. Ela está nas filas das universidades, nos postos de saúde, nos caixas da Caixa Econômica Federal e nas mesas de milhões de famílias brasileiras.

São pessoas que recebem o Bolsa Família, estudam graças ao Prouni, utilizam o Fies, dependem do SUS, conquistaram a casa própria por programas habitacionais ou tiveram acesso ampliado à universidade pública por políticas de inclusão. Ainda assim, muitas delas fazem questão de afirmar que “não recebem ajuda do governo” ou atacam justamente as políticas públicas das quais são beneficiárias.

Não se trata de um fenômeno exclusivo do eleitorado de Jair Bolsonaro. Pessoas de diferentes espectros políticos podem demonstrar incoerências semelhantes. Entretanto, entre setores do bolsonarismo, essa contradição tornou-se particularmente visível, sobretudo porque parte significativa do discurso político do movimento foi construída criticando programas sociais criados ou ampliados por governos anteriores.

Quando a identidade política supera os fatos. Pesquisadores da ciência política e da psicologia social explicam esse comportamento por mecanismos conhecidos. O psicólogo social Leon Festinger, ao desenvolver a teoria da dissonância cognitiva, mostrou que seres humanos têm dificuldade em aceitar informações que contradizem suas crenças. Quando isso acontece, muitas vezes preferem reinterpretar a realidade a rever suas convicções. O economista e psicólogo Daniel Kahneman, vencedor do Nobel, também demonstrou que boa parte das decisões humanas não é guiada por análises racionais, mas por respostas emocionais rápidas e intuitivas.

Na prática, isso significa que uma pessoa pode receber um benefício social todos os meses e, ainda assim, acreditar sinceramente que ele não representa uma política pública importante , simplesmente porque admitir isso colocaria em conflito sua identidade política.

O Bolsa Família não é favor. Criado em 2003 e posteriormente aperfeiçoado ao longo dos anos, o Bolsa Família tornou-se uma das maiores políticas de transferência de renda do mundo. Diversos estudos do Banco Mundial, da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada apontam que o programa contribuiu para reduzir a pobreza extrema, melhorar indicadores de nutrição infantil, ampliar a permanência escolar e diminuir desigualdades regionais.

Da mesma forma, o Prouni, criado em 2004, permitiu que centenas de milhares de jovens de baixa renda ingressassem no ensino superior privado com bolsas integrais ou parciais.

Essas políticas não representam “esmolas”. São investimentos públicos financiados pelos impostos pagos pela própria sociedade e previstos dentro do papel constitucional do Estado brasileiro.

O curioso silêncio do reconhecimento. É legítimo discordar de governos. É saudável criticar políticas públicas. É necessário fiscalizar o uso dos recursos públicos. O problema surge quando alguém usufrui diretamente de uma política pública, melhora sua qualidade de vida graças a ela e, mesmo assim, passa a tratá-la como algo desprezível ou inexistente. Reconhecer que determinado programa funcionou não significa aderir a um partido político.

Da mesma forma que elogiar a vacinação não transforma alguém automaticamente em apoiador de um governo específico, reconhecer os resultados de uma política social também não deveria ser interpretado como militância partidária.

A maturidade democrática exige justamente essa capacidade de separar governos, partidos e políticas públicas.

O Brasil que prefere negar a própria história. Boa parte das políticas sociais brasileiras atravessou diferentes governos. O Bolsa Família foi mantido, reformulado e posteriormente retomado após mudanças administrativas. O Prouni permaneceu em funcionamento durante governos de diferentes orientações políticas. O SUS continua sendo utilizado diariamente por milhões de brasileiros, inclusive por pessoas que frequentemente defendem sua redução.

Mesmo assim, parte da população parece viver uma curiosa amnésia política. Há quem comemore a aprovação do filho na universidade sem reconhecer o papel das bolsas de estudo. Há quem critique programas sociais enquanto recebe mensalmente seus benefícios. Há quem condene o Estado, mas espere dele atendimento médico, aposentadoria, crédito agrícola, seguro-desemprego ou assistência em momentos de crise.

A política não deveria apagar a gratidão. O reconhecimento não é um ato de submissão política. É um exercício de honestidade intelectual.

Se uma política pública trouxe resultados positivos, reconhecer esse fato não impede que seus erros também sejam criticados. A democracia amadurece quando os cidadãos conseguem avaliar políticas com base em evidências, e não apenas na identidade partidária de quem as implementou. Talvez o maior desafio do Brasil contemporâneo seja justamente esse: abandonar a lógica da torcida organizada e recuperar a capacidade de analisar a realidade com menos paixão e mais responsabilidade.

Porque, quando a ideologia impede alguém de reconhecer aquilo que mudou sua própria vida, o debate político deixa de ser uma busca pela verdade e passa a ser apenas um exercício de negação.

Referências

  • Banco Mundial. Estudos sobre programas de transferência de renda no Brasil.
  • IPEA – Pesquisas sobre pobreza, desigualdade e políticas públicas.
  • CEPAL – Relatórios sobre proteção social na América Latina.
  • Ministério da Educação – Dados oficiais do Prouni.
  • Daniel Kahneman. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar.
  • Leon Festinger. A Theory of Cognitive Dissonance.

Nota editorial: É importante evitar generalizações. Nem todos os apoiadores de Jair Bolsonaro recebem benefícios sociais, assim como nem todos os beneficiários desses programas apoiam o ex-presidente. A crítica apresentada neste meu artigo dirige-se à incoerência observada em parte desse grupo, quando há rejeição pública a políticas das quais a própria pessoa é beneficiária.

2 comentários

  1. Importante separar o “joio do trigo”,crescer e reconhecer as Políticas Públicas que beneficiam a População,independente de Ideologia Política.

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