Quando o crime organizado deixa de procurar políticos e passa a produzir políticos

Quando o crime organizado deixa de procurar políticos e passa a produzir políticos
Quando o crime organizado deixa de procurar políticos e passa a produzir políticos

Por Regina Papini Steiner | A Chama

Há um momento na história de toda democracia em que o maior perigo deixa de estar nas armas e passa a ocupar os gabinetes.

O Brasil parece caminhar exatamente por esse território.

Durante décadas, nos acostumamos a enxergar o crime organizado como um problema restrito às periferias, aos presídios e às páginas policiais. Enquanto isso, silenciosamente, organizações criminosas compreenderam algo que talvez o Estado tenha demorado demais para perceber: é muito mais eficiente influenciar quem faz as leis do que simplesmente desrespeitá-las.

O resultado dessa estratégia está diante dos olhos do país.

Facções ampliam seus negócios. Milícias expandem seus territórios. Recursos públicos desaparecem. Investigações tornam-se mais difíceis. Testemunhas têm medo. Jornalistas são atacados. E a democracia vai sendo corroída não por um golpe clássico, mas pela infiltração gradual do poder criminoso nas estruturas do Estado. Esse talvez seja o maior desafio institucional do Brasil contemporâneo.  Não se trata mais de perguntar se o crime organizado tenta interferir nas eleições. A pergunta correta é outra: Quanto da política brasileira já foi contaminada por essa lógica?

Ao longo dos últimos anos, uma sucessão de investigações, reportagens e documentos revelou conexões políticas que jamais poderiam ser consideradas banais. Veículos como CartaCapital, The Intercept Brasil, Brasil 247 e ICL Notícias dedicaram inúmeras reportagens às relações entre personagens da política nacional e indivíduos posteriormente investigados ou apontados em investigações envolvendo milícias e outras organizações criminosas. Entre esses episódios, destacam-se as controvérsias envolvendo integrantes da família Bolsonaro. Ex-assessores investigados, homenagens prestadas a pessoas posteriormente associadas às milícias, vínculos políticos amplamente debatidos pela imprensa e investigações sobre o caso das “rachadinhas”, assassinatos, alimentaram uma sequência de questionamentos públicos que ainda repercutem no cenário político nacional.

Esses fatos tiveram diferentes desdobramentos judiciais e políticos e continuam sendo objeto de debate público e cobertura jornalística.

Uma democracia saudável exige que tais episódios sejam esclarecidos de forma transparente. Infelizmente, no Brasil, qualquer tentativa de investigação costuma ser imediatamente transformada em batalha ideológica. Perguntar virou ofensa. Investigar virou perseguição. Publicar documentos virou militância. Esse ambiente interessa a quem? Certamente não à sociedade. Interessa aos que preferem substituir respostas por discursos inflamados. Interessa aos que transformam seguidores em torcidas organizadas incapazes de admitir qualquer questionamento. Interessa, sobretudo, a quem deseja que o debate público seja dominado pela emoção e não pelos fatos.

Quando a política se transforma em culto à personalidade, desaparece o controle democrático. E onde não existe fiscalização, prospera a corrupção. Prospera a impunidade. Prosperam as organizações criminosas. Não existe democracia verdadeira quando determinadas regiões vivem sob o comando do medo. Não existe liberdade eleitoral quando comunidades inteiras sabem que contrariar determinados interesses pode significar perder o emprego, sofrer represálias ou colocar a própria família em risco. Não existe voto plenamente livre quando o Estado perdeu espaço para grupos armados.As eleições deixam de representar a vontade popular para representar a capacidade de intimidação de quem controla territórios. Esse processo não acontece apenas com armas. Ele acontece também através da captura das instituições. Capturam-se partidos. Capturam-se lideranças. Capturam-se discursos. Captura-se a verdade. E talvez este seja o aspecto mais perverso do cenário brasileiro.

Vivemos uma época em que parte da população passou a defender políticos da mesma forma que torcidas defendem clubes de futebol. Pouco importa o que as investigações revelem. Pouco importam documentos. Pouco importam contradições. Importa apenas proteger o líder. Essa lógica destrói qualquer possibilidade de controle democrático. Nenhum agente público deveria ser blindado da investigação. Nem Bolsonaro. Nem Lula. Nem governadores. Nem prefeitos. Nem parlamentares. Quem exerce poder deve aceitar o escrutínio público como condição básica da democracia.

O jornalismo existe justamente para isso. Não para condenar. Não para absolver. Mas para perguntar aquilo que muitos prefeririam manter escondido. Atacar jornalistas, desacreditar a imprensa ou transformar qualquer investigação em “perseguição política” tornou-se uma estratégia recorrente daqueles que compreendem que a dúvida pública pode ser mais perigosa do que uma sentença judicial.

A história ensina que regimes autoritários começam justamente quando a sociedade passa a desconfiar mais dos jornalistas do que dos poderosos.

O Brasil chega às eleições carregando uma responsabilidade histórica. Mais importante do que escolher candidatos será decidir que tipo de democracia desejamos preservar. Uma democracia onde organizações criminosas disputam espaço institucional? Ou uma democracia capaz de investigar qualquer autoridade, independentemente do sobrenome, da ideologia ou do capital eleitoral?

A captura do Estado pelo crime organizado não acontece de uma única vez. Ela avança lentamente. Primeiro ocupa bairros. Depois prefeituras. Mais tarde assembleias. Por fim, aproxima-se do coração das instituições nacionais. Quando a sociedade percebe, o combate deixa de ser contra criminosos armados. Passa a ser contra estruturas inteiras de poder. E talvez esse seja o maior alerta que as eleições de 2026 deixam ao Brasil.

O verdadeiro adversário da democracia não é apenas o candidato de quem discordamos. É qualquer projeto de poder que normalize a convivência entre política e criminalidade, trate investigações como perseguição e transforme instituições públicas em escudos particulares. Porque, quando o crime organizado deixa de procurar políticos e passa a produzir políticos, não é apenas uma eleição que está em risco. É a própria República. 

3 comentários

  1. Sofremos mtooo na Ditadura..a duras penas e perdas de Mtas vidas conquistamos a Democracia…e ela perdeu o Respeito a cada dia com o Crime “Organizado” em todas as áreas…existem interesses financeiros prá que ele prospere…Haja Espírito Democrático para sobrevivermos a esse horror…triste e revoltante….😡😥

  2. Parabéns pelo conteúdo. Realmente estamos diante de uma situação muito difícil . Visualizo muito essa situação, mas acredito que ainda temos alguém a frente deste governo.

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